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After No Divã #16 | Por que Tessa perdoa Hardin?
POSTADO POR Colunista Convidado EM 15.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Essa é uma sugestão que apareceu pelo Instagram e há muito tempo quero falar sobre ela. Já conversamos sobre a personalidade de Tessa em diferentes aspectos em outros textos da coluna After no Divã, mas este, especificamente, vou falar sobre o ‘super poder’ que essa mulher carrega consigo em todas as searas da vida.

Família, amigos, namorado… A sensação é que todo mundo já pisou na bola com Tessa em algum momento da vida. A cada perdão, uma mágoa vivida. Por ora, vou me ater ao grande momento que faz um enigma para o leitor que se interessa em continuar a leitura depois do primeiro livro. Será que Hardin terá uma segunda chance? Será Tessa capaz de perdoar a traição de seus amigos? Será que ela vai suportar viver com a ideia dos seus valores morais completamente desmoronados? Para todas essas perguntas, a resposta “sim” parece não indignar depois que começamos a conhecer a fundo esta personagem.

O que faz Tessa perdoar é mais do que o amor. É a resiliência. É algo que ela se dispõe e que hoje é raridade no mundo: ouvir o outro. Quando dizem que a história de Anna Todd é puramente abusiva (sem aplicar isso a um contexto) e que Tessa era submissa a Hardin, eu discordo veementemente. Ela é forte e sabia muito bem o que estava fazendo: ela estava se dando uma segunda chance. Não era para Hardin, era para si, de assumir a postura de uma mulher que também erra (inclusive nas suas escolhas), mas que há uma história para além do erro. E é claro que ele erra feio com ela, mas paga com juros altíssimos, como discuti no texto Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?.

Tem algo que ela quer descobrir e permanece nisso não por ‘inocência’, não mesmo. Há algo do passado que ela defronta em Hardin, com um homem que erra, mas dessa vez ela quer entender o porque. Diferente da sua infância, desta vez ela começa a fazer perguntas, e não engole qualquer história. Esse é o enigma que Hardin faz pra ela e é uma resposta que faz ela gozar desta posição: o erro é de quem a magoa, e não é por culpa dela. Quando perdoa Hardin, é como se ela quisesse ‘ficar para ver’ que os homens saem da sua vida cometendo erros gravíssimos não para atacá-la, mas porque não dão conta de si, de enfrentarem as suas próprias histórias.

É claro que a opção de perdoá-lo não é totalmente consciente. Vejo como um enfrentamento ao pai e à sua própria história. Tessa é tão forte, que fica para provar isso e mostrar ao outro: lide com os seus erros ao invés de magoar os outros. E não é isso que ela faz com Hardin depois que o perdoa? Coloca ele a trabalho e faz ele enfrentar cada monstro do seu passado. E é aí que o perdão se sustenta: porque há um amor, que absolutamente, ela não queria perder.

E assim como Tessa, quem continua a leitura dos livros também o perdoa. Quando entra a palavra e a informação sobre ele em detalhes, o julgamento pela história se torna possível, e pelo visto, muita gente decidiu perdoá-lo com ela (vide a quantidade de livros vendidos).

Costumo dizer que Tessa não passa a ser uma nova mulher depois de Hardin. Ela sempre foi assim, desse jeito, só não podia ser, nem se revelar. Sempre foi julgada pela família, pela vida social da mãe e pelo ‘castigo’ de não ter vivido com o pai, que talvez influenciaria nas regras e padrões que a mãe a impunha.

Em vários momentos do livro (e também em uma cena do filme), Hardin diz a ela quando ela precisa se colocar para mãe ou para Noah: não coloque isso na minha conta, isso é seu. Não é por causa de Hardin que ela abre mão da vida que levava. É por ela mesma. E quando ela se descobre, só há o After (depois). Isso muda as coisas.

Ao meu ver, o único momento em que Hardin a influencia a perdoar, é quando ela encontra o pai. Ele praticamente a coloca de frente com essa situação, assim como ela faz com ele quando o leva de forma mais constante para casa de Ken. Conhecendo Richard, ela passa a ver o homem para além da triste história que conhecia da infância, e percebe que é possível amá-lo, apesar de tudo.

Resumindo, há perdão porque há amor. Não que o amor tenha que sustentar todos os erros, mas é através dele que há possibilidade de ouvir o outro e não julgar o livro pela capa, literalmente. Entre o amor e o perdão há a resiliência, que faz com que uma pessoa dê uma nova chance ao outro e também a si mesma. E diferente do que a crítica pontua, After não fornece um ‘aval’ para que atitudes erradas permaneçam aí e que novas Tessas surjam para perdoá-las. Cada história é uma e todas devem ser traduzidas em palavras, porque enquanto não houver discussão, as pessoas envolvidas jamais saberão que existem uma segunda chance, seja para ficar, seja para sair da sua própria história.  

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

O que há nas prateleiras de Anna Todd, Josephine Langford e Hero Fiennes Tiffin?
POSTADO POR Anne Meyer EM 10.May ARQUIVADO EM:Anna Todd Entrevistas Hero Fiennes-Tiffin Josephine Langford

Entrevista original por That Shelf.

After não é apenas um filme, é um movimento. Você poderia descrever After como um drama romântico, ou você pode dizer às pessoas que ele é baseado em uma série de romances New Adult, mas você estaria fazendo o fenômeno After um desserviço. É um juggernaut (tipo de fanatismo) da cultura pop que só poderia existir na era da mídia social, e o filme tem uma história infernal de origem.

Então, se você não está sabendo sobre todas as coisas de After, vamos te contar.

After é dirigido por Jenny Gage e adaptado do romance mega-popular de Anna Todd. Conta a história de uma boa adolescente chamada Tessa, que vai para a faculdade e conhece um “bad boy” chamado Hardin. Tessa já tem um namorado, Noah. Hardin tem tatuagens e ambos têm química. Então um relacionamento tumultuado surge.

Em 2013, Todd começou a escrever fanfiction de One Direction no Wattpad , uma plataforma on-line que conecta leitores e escritores. Suas histórias sobre os garotos da banda, Harry Styles, Niall Horan, Liam Payne, Louis Tomlinson e Zayn Malik, atraíram um grande público e fizeram com que Todd fizesse um livro. Sua fanfiction sofreu mudanças por motivos legais. Essas histórias do One Direction tornaram-se After, e o personagem de Harry se tornou Hardin Scott. Hoje, a série After abrange vários livros, incluindo um prequel, um spin-off e agora um longa-metragem. Então, quão popular é o trabalho de Todd? De acordo com os números on-line, ela foi lida mais de um bilhão de vezes.

Todd está atualmente em turnê pelo mundo promovendo o lançamento de After. Ela passou por Toronto na semana passada junto com as duas estrelas do filme, Josephine Langford (Tessa) e Hero Fiennes Tiffin (Hardin). Nos encontramos no centro de Toronto e discutimos sobre o fandom de After, adaptação da história para o filme e, como sempre, o que eles têm em suas prateleiras.

Com tantas conversas em torno das duas primeiras filmagens do filme, perguntei ao trio sobre quais aspectos de seu filme ficaram fora do radar. “Há tantas pessoas envolvidas em fazer um filme. Tantas pessoas maravilhosas” – disse Langford. “Não nos perguntaram muito sobre nosso figurino ou sobre nossos maravilhosos cineastas.”

“Eu acho interessante que cada personagem tenha sua própria paleta de cores”, acrescentou Todd. “Eu acho que eles [os espectadores] percebem isso visualmente, mas eles não entenderam que perceberam. Foi uma decisão consciente para Tessa estar em tons pastel e Hardin para ser vestido de preto. Mas preste muita atenção e você notará que mesmo o elenco de apoio tem combinações de cores consistentes; Steph (Khadijha Red Thunder) está em vermelho, Molly (Inanna Sarkis) em rosa, Noah (Dylan Arnold) em tons de azul claro.

Perguntei a Todd como ela combinava os personagens com suas paletas de cores. “Exatamente com qual é o estereótipo de uma cor”, respondeu Todd. “Steph, ela tem cabelo vermelho, ela é muito fogosa, ela é muito enganadora, ela é meio barulhenta. Já com Noah, ele é doce e gentil, e calmo, ele é azul claro. Hardin é apenas uma alma negra – acrescentou ela com uma risada. “Não, estou só brincando. É uma piada do livro que não entrou no filme. Ele veste muito preto. Tessa é doce e gentil, então pastéis.

A antecipação da adaptação de After está em alta. Chamar os fãs da série de apaixonados é como dizer que Steph Curry pode jogar bola. Como o toque de tiro de Curry, o randomizado de After existe em um outro nível. Esse fandom de nível alto vem com sua parte de desvantagens; a divulgação de nossa entrevista ficou em segredo para evitar atrair uma multidão. Eu perguntei ao trio sobre as mudanças positivas que vieram depois de alcançar um público totalmente novo. “Apenas uma enorme quantidade de apoio de fãs que vão apoiá-lo em tudo que você faz”, Fiennes Tiffin respondeu rapidamente. “Apenas o apoio encorajador e lisonjeiro.”

“É como ter mil ou vários milhares de pequenas empresas de marketing”, disse Todd. “Nós tivemos fãs indo até o campus universitário e pendurando cartazes de After por todos os lados. Então, é como um time de rua que apenas faz isso pela paixão, e eles não estão preocupados necessariamente com números ou qualquer uma dessas coisas. Eles são apenas apaixonados.

“Eu sinto que a Anna tem sido tão interativa com os fãs, há muitas coisas sobre o filme em que ela lhes fez uma pergunta, e eles responderam à essa pergunta”, Fiennes Tiffin acrescentou. “Eles genuinamente têm algo a dizer sobre o filme. Eles são mais do que pessoas de fora que apreciam isso. Eles estão realmente nisto.”

A série After vem ganhando força há mais de meia década, e os fãs passaram a maior parte do tempo com suas próprias noções de elenco de personagens do livro. Eu perguntei a Langford e Fiennes Tiffin como eles se mantiveram fiéis às origens de Tessa e Hardin enquanto ainda faziam os personagens serem seus.

“Quando li o livro, tive muita sorte de ser tudo da perspectiva de Tessa. E assim, imediatamente lendo, senti que podia me conectar com ela e entender o que ela pensava ”, disse Langford. “E então, lendo o roteiro, entrei nele com o personagem que eu já tinha na cabeça graças aos livros”. Mais tarde, ela acrescentou: “Ter o livro foi incrivelmente útil na tradução do personagem.”

Fiennes Tiffin mais tarde seguiu: “Eu diria que ter Anna no set todos os dias foi perfeito… Isso dá a você muita liberdade para testar os limites do personagem, e ela simplesmente estaria lá para dizer: ‘Sim, isso é onde esse aspecto para. Esse diálogo constante que tivemos me deu muita liberdade para explorar e empurrar o personagem para seus limites [enquanto] permaneceu fiel ao círculo em que ele realmente está.”

“Essa é uma ótima pergunta sobre colocar sua marca em algo onde há expectativas envolvidas com o material”, disse Langford. “E eu acho que você só tem que fazer escolhas e ter confiança nessas escolhas e não se sentir pressionado ou inseguro sobre o que está fazendo e se certificar de que você está fazendo o personagem do seu jeito.”

Depois, o elenco e a equipe foram trabalhar todos os dias com as enormes expectativas da franquia no fundo de suas mentes. Para este filme, sucesso significa agradar o estúdio, os leitores de livros e agora os espectadores. Eu perguntei sobre que tipo de dúvidas eles enfrentaram enquanto filmavam o filme. “Eu gosto de ser bastante realista comigo mesmo, acho que não diria que duvido de mim mesmo, mas acho que todos os dias preciso fazer o melhor que posso”, disse Fiennes Tiffin.

Fiennes Tiffin acrescentou: “Isso é algo que muita gente mataria para fazer e para ter certeza de que, em tudo que faço, faço o melhor que posso. Então eu sinto que entender que você nunca alcançará a perfeição, lembra você de sempre lutar por isso. Isso faz sentido? Mas sim, 100% eu não acho que estamos prestes a derramar todas as nossas dúvidas e inseguranças em uma página que será compartilhada ao redor do mundo, mas eu sei que posso falar por esses caras. Todo mundo faz, se eles admitem ou não.

Eu não podia deixar Todd, Langford e Fiennes Tiffin irem sem perguntar a eles que posses valiosas estavam em suas prateleiras. “Eu colecionei muitas coisas ao longo da minha vida, e acho que é mais ser uma acumuladora do que ser apaixonada por elas e então eu tentei parar com isso”, disse Langford. “Apenas filmes. Eu amo filmes, tenho uma coleção de DVDs na minha estante ”.

Fiennes Tiffin seguiu com: “Bem, nesta turnê recebi muitas coisas de futebol de cada lugar que estivemos. É tão bom ter essas coisas, só um pouquinho de cada lugar, sabe? A, novidade… ter boa memória disso. Então, sim, acho que vou continuar essa tradição e conseguir um coisas de futebol de onde quer que eu vá.

Todd me disse: “Eu tenho um milhão de livros nas minhas prateleiras, mas eu tenho uma coisa em que quando eu comecei a viajar, ou se eu vou a um lugar que eu não tenho, eu recebo uma cópia do meu livro favorito nessa língua. E eu tenho todo esse tipo de santuário para este livro de Cassandra Clare que está em todas as línguas na minha estante. Eu pegava uma camiseta para o meu filho e depois um livro de qualquer país, naquela língua. Se eu fosse para a Espanha, teria a versão catalã, se estivesse em Barcelona; obter a versão em espanhol em Madrid. Então, eu tenho muito disso ”.

Perguntei a Todd sobre o que seu livro favorito fala. “Só tem tudo”, disse ela. “Tem romance, tem esse intenso romance entre personagens inteligentes. Às vezes, no romance, é difícil encontrar essa intelectualidade.. Acho que autores tentam fazer personagens estereotipados e assim os personagens em série de livros, são tão inteligente da sua própria maneira, e cada um tem seu próprio conjunto de passatempos, e eles estão vivos e eles também literalmente salvam o mundo.

É fantasia, é romance, tem muita profundidade familiar, é Princesa Mecânica . É a série Peças Infernais, mas especificamente este livro. E você vai rir, chorar, literalmente querer separar as páginas. Acho que joguei esse livro do outro lado da sala muitas vezes. Como eu terminei com isso. E então eu corria e pegava de volta. Literalmente, cada emoção é contada de maneira tão detalhada”.

Tradução por Anne Meyer, After Brasil.

After No Divã #15 | Molly Samuels por detrás do semblante da ‘vilã’
POSTADO POR Colunista Convidado EM 09.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Dentre os personagens de After que mais despertam a curiosidade dos leitores, Molly sem dúvida alguma ocupa o Top Five das personalidades que gostaríamos de compreender melhor. Extremamente marcada por uma presença forte (física e emocionalmente), a dona dos cabelos cor de rosa merece um destaque no divã, e hoje vamos falar sobre ela. 🙂

No texto do Zed comentei sobre o papel dele de marcar o antagonismo ao casal principal da trama (se você não leu, clique aqui para ler). A princípio, Molly aparentemente carrega essa característica, de tentar forçar um triângulo amoroso onde ‘competiria’ com Tessa o amor de Hardin. Entretanto, ao meu ver, o papel dela vai muito além disso. Não há competição nem aposta para ver quem levaria ‘a melhor’. A questão dela é endereçada mais do que a Tessa ou a Hardin, mas à vida. E é atrás deste semblante de bad bitch que ela irá se esconder do seu próprio passado e não se deixará abalar por qualquer situação.

Vocês também percebem que ao longo da narrativa fica claro que o objetivo dela nunca foi o Hardin especificamente? Por mais que tenha sido ela a provocar Tessa na festa em que se conheceram, a endereçar mensagens para o telefone de Hardin e a revelar a aposta, ela nunca quis ‘vencer’ Tessa e ganhar Hardin como um troféu. Para mim, Molly tem uma questão por detrás do casal que é muito mais do que ‘forçar’ uma separação entre eles. Há um medo de enfrentar a vida e o amor, a partir do que eles começam a desvelar para ela. E é isso que a incomoda. Para não ter que lidar com isso, é melhor se afastar e continuar a ocupar o lugar de vilã da vida. É melhor manter-se forte do que fraquejar para um sentimento que só trazia culpa a ela.

Molly tem um papel tão relevante, que ganhou algumas páginas no livro que desvenda o passado de Hardin e de alguns outros personagens, também conhecido como Before.  No prefácio ao capítulo de Molly, Anna descreve “Conforme a garota foi crescendo, ela aprendeu o jogo e se tornou uma excelente jogadora”. Há uma contextualização no passado da história desta personagem onde ela aprende a vestir-se do semblante da sensualidade para não ter que se a ver com o vazio em si. Ela só ganharia a atenção de alguém se pudesse expor o que ela tinha de bom: o seu corpo, bem como a sua mãe lhe ensinou. Porém, ao contrário de Carol, a mãe de Molly a culpou pela vida que levava e até por ter destruído o corpo que tinha antes de engravidar. E então decide abandonar a filha, em meio a um vazio de uma vida cheia de mordomias e sem nenhuma simpatia.

Apesar disso, Molly soube amar. E quando descobriu que isso seria possível, perdeu o grande amor da sua vida praticamente em seus braços, em um acidente de carro que ela mesmo havia causado. Mais uma vez, a culpa por estragar a vida dos outros se fez presente. E enquanto corria de um homem que a perseguia na rua, a mãe de seu ex-namorado a encontra e a aconselha a ir estudar. E é mais uma tentativa que ela faz para manter-se de pé, mostrando que a personalidade é forte, porque assim teria que ser, não havia outra alternativa.

Diferente de Hardin, Molly tem um passado traumático onde ela só sobreviveria se fosse forte. Ninguém escondeu-lhe a dor. Ela conheceu a mãe que tinha e precisou enfrentar isso. Ela conheceu o amor e foi assombrada por ele, quando se deparou com a morte do corpo de um amante, que enterrou com ele, toda a esperança de que a garota de cabelos cor de rosa poderia ter neste sentimento. O amor, para ela, não é algo desconhecido. É sinônimo de dor, de culpa. E a única saída seria ser forte e fechar-se a essa possibilidade, seja de onde ela viesse.

E assim fez, foi estudar e precisou enfrentar um amor que deu certo. Como mencionado acima, a questão dela não era com Hardin, mas com o amor que ele poderia sentir. Ela não acreditava em um amor sem culpa, e quase que numa tentativa de fazer Tessa enxergar isso, ela a provoca e revela a aposta como se quisesse dizer: “Jamais acredite no amor, ele sempre decepciona”. Da pior maneira possível, ela ajuda Tessa na tentativa de poupá-la de viver o que ela já viveu. Isso também explica a atitude que Molly teve na fatídica noite da traição de Steph. Mais uma vez, ela é quem ajuda Tessa, mas desta vez, pelos motivos certos. E isso a transforma. Ouso dizer que é nesse momento em que ela descobre que poderia amar novamente, porque consegue se importar e proteger alguém de si mesma.

A antipatia entre Tessa e Molly revelava o amor, em diferentes momentos. Tessa estava encontrando-o e Molly não queria sentí-lo novamente. Ter Hardin seria uma forma de poupar Tessa e talvez até Hardin de ter que enfrentar a dor de amar. Ela nunca o amou. Ele sustentava o semblante de que ela era atraente ao olhar de um homem e de que ela era forte: se precisasse descartar ele, ela também o faria. Como o fez. Não ficava só com ele. Ficava com outros para dar conta de decidir, como se controlasse o que sentia. E quando enfrenta o amor ao defender Tessa, ela volta a amar e possibilita-se a ter um novo relacionamento amoroso, poupando Hessa de suas provocações.

Molly é forte, provocativa, atraente, inteligente. É do tipo de personalidade que se adquire ao longo da vida, de uma casca grossa trazida com a dor. E para mim, Molly traz duas mensagens importantíssimas na obra de Anna Todd: a de que é possível seguir em frente e a de que defesa alguma é capaz de apagar um passado. É preciso ser forte, pois não há armadura física suficiente para afastar-lhe das dores que já viveu. É preciso enfrentar o outro não pela autodefesa, mas por quem ela é de verdade. É isso que ela revela a Tessa e aos amigos: quem ela sempre foi e quem jamais gostaria de ser novamente.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

After No Divã #14 | Zed e o papel de revelar Hessa
POSTADO POR Colunista Convidado EM 01.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Dentre as dicas de temas para os textos que vocês me enviam, sempre tem alguém para sugerir Zed e o seu comportamento. Pois bem, chegou a hora de falar sobre ele.

Detalhar as características deste personagem passa, necessariamente, pelo relacionamento dele com Hardin e Tessa. Assim como Steph, Zed assume um papel crucial de antagonismo ao amor romântico da trama de Anna Todd. Em todo romance (real ou ficção) vão existir personagens externos à relação para fazer existir aquele casal. Só é possível conhecer uma pessoa e se relacionar com ela se ambos forem expostos à situações externas (sendo boas ou não), para conhecermos como o(a) parceiro(a) lida com aquilo. E Zed tem claramente essa função: revelar como Hardin seria capaz de lidar com os sentimentos “novos”, quando descobre pela primeira vez o amor; e também Tessa, que se vê pela primeira vez livre de padrões que seguiu a vida inteira.

Zed marca um novo para os dois personagens principais. Hardin se revela ciumento (e às vezes possessivo) na presença de Zed. Tessa se revela empoderada quando se dá ao direito de conversar com ele independente de quem a proíba. Ela deixa os valores dominantes da mãe para trás e mostra claramente para Hardin que não voltará a ser submissa a ordens que não concorda, através de Zed. Em suma, esse é o papel dele em After.

Todavia, olhando para a personalidade dele, de forma isolada, vemos um personagem imaturo, a princípio. A atitude de manter a aposta é dos dois e não tê-la revelado para Tessa é tão “grave” quanto foi para Hardin. Se queria conquistar Tessa, ele tinha o jogo na mão, mas preferiu ficar na posição que estava, talvez porque nunca a amou de verdade. Diferente de Hardin, Zed não foi obrigado a lidar com a imaturidade ao preço de perder o que mais lhe importava no mundo. Zed experimenta o desafio pelo jogo, pela disputa fálica e pela mostração aos amigos, no processo de identificação ao grupo. É isso que estava em jogo pra ele, não Tessa, necessariamente. Ele estava em busca de marcar a sua posição frente ao outro, que iria nomeá-lo como vencedor ou perdedor. E apenas isso.

Por outro lado, quando oferece apoio à Tessa, ele parece se esquecer da aposta. Quando ele começa a se aproximar dela, a sensação que fica é que ele passa a querer protegê-la da posse de Hardin. Ele não forçou conquistá-la para ganhar a aposta em nenhum momento. Ele forçou o confronto com Hardin para revelar à Tessa quem ele poderia ser quando estava com raiva. E é nesse momento que ele passa a ser alguém mais maduro. Ele sempre a protegia a troco de muito pouco. Ele sabia que o amor dela não era por ele. Ele tenta se aproximar quando os dois estão separados, porque de fato começou a despertar um interesse do flerte (não necessariamente do amor), mas ele sabia o seu lugar e os seus limites, tanto que quando Tessa se coloca para ele, ele questiona a ela sobre o que estava fazendo, se era realmente o que queria.

Ao meu ver, Zed só se revela vilão no dia do enterro do pai de Tessa, onde força uma situação contrária ao casal, com intuito de mantê-los separados em um momento tão delicado para ela. E isso basta para Tessa e Anna Todd deletá-lo do contexto. Enquanto não foi um vilão, ele foi um personagem chave na história, que fez os protagonistas crescerem. Quando se revelou mais fraco agindo de má fé, perdeu totalmente a razão.

Portanto, diferente de Hardin, Zed é um personagem que cresce, mas não termina bem. Ela distancia-se da aposta, mas aproxima-se de sua queda quando se dá conta que jamais terá Tessa. E ao contrário de Trevor (que de certa forma vai assumir esse papel na história), Zed declina e se mostra um vilão exatamente no momento mais sensível da história de Tessa, onde ele nem precisaria entrar em confronto direto com Hardin.

Enquanto depertou um Hardin que Tessa precisaria descobrir, Zed perdeu-se no seu objetivo, que até então ia bem. Algumas páginas extras pra gente descobrir o passado de Zed em Before poderiam nos ajudar a explicar bem porque ele fez essa escolha. Das suas emoções não sabemos muito, mas das nossas sempre que ele é incluído entre Hessa, não temos dúvidas de que são fortes.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

After No Divã #13 | Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?
POSTADO POR Douglas Vasquez EM 24.Apr ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Foi exatamente esta pergunta que chegou para mim pelas Redes Sociais e não foi a primeira vez que a vi. Percebo este questionamento com frequência na minha página e em várias outras que acompanho de After

E de fato é um questionamento bem pertinente à narrativa. E ele não é por um acaso. E nem foi uma ‘falha’ da obra. Muito pelo contrário. Quando Anna discorre detalhadamente sobre Hessa e caminha para o clímax do final do primeiro livro, começamos a perceber a fraqueza de Hardin. Quando o amor para além de si entra em cena, ele não sabe o que fazer.

Mas afinal, porque ele mantém este segredo da amada?

Hardin nunca se importou com nada, até conhecer Tessa. Já disse em vários textos que After na verdade é sobre ele, sobre toda a mudança que ele tem que enfrentar quando a encontra. Entretanto, não há escolha sem perda, nem ‘milagres’. Mudar de hábitos não é uma tarefa fácil e os dois personagens estão aí para nos provar isso. Pra Hardin, encarar questões que ele sempre preferiu “deixar para lá” trouxe um preço que só ele poderia pagar.  

Manter o jogo era uma forma de manter segredo sobre o seu amor e sobre a sua fragilidade frente à ele – tanto que ele nem conta aos amigos que ele e Tessa estão morando juntos. Continuar com a aposta não foi uma forma de machucar Tessa, mas de não se machucar. Ele ainda não sabia lidar com esse outro. Se no momento da aposta ele não se importava com nada (nem mesmo com a opinião dos amigos), depois de Tessa, a opinião deles passou a importar muito, pois ele temia saber o que eles pensavam, o que iriam achar dele e até o que poderiam fazer a ele e a amada.

Hardin é um personagem tão real, que é como muitas pessoas, que tentam fazer as coisas certas, mas pelas piores maneiras possíveis. Ao meu ver, ele manteve a aposta por total insegurança, por não saber o que esperar disso, dos amigos, e principalmente, por Tessa. Naquele momento a maior fragilidade dele era perdê-la. Nunca acreditei que a intenção dele foi continuar com a aposta. A realidade é que ele não soube lidar com isso e não fazia ideia de como “se livrar” dessa situação. Aí encontra os amigos um dia antes da revelação, age pela agressividade, magoa Tessa não dormindo em casa e não resolve nada. Perde tudo. Tenta resolver as coisas com boa intenção, mas não sabe fazê-lo. A aposta foi um ótimo momento para revelar Hardin: alguém capaz de amar e se importar, mas sem habilidade alguma para lidar com isso.

Manter a aposta não foi uma opção, mas a falta de uma alternativa que ele pudesse suportar.

E o que faz o sujeito manter estas escolhas? Em outros textos já discuti sobre a neurose obsessiva, termo criado por Sigmund Freud para dizer sobre uma estrutura psíquica que produz sofrimento e aponta para os impasses do sujeito com o seu desejo inconsciente. É comum do sujeito neurótico obsessivo não querer abrir mão de suas escolhas, ele tenta preencher tudo e não deixar faltar nada. Quando perde algo, sofre. É aquele tipo de pessoa que vai ao cinema com a namorada e sempre deixa ela escolher o filme, com medo de faltar algo a ela, mesmo que não seja o filme que ele queria ver de verdade, sabe?

Revelar ou não a aposta, para Hardin, seria perder alguma coisa: ou Tessa ou os seus amigos ou a si mesmo. Era um momento de escolha, que necessariamente implicaria em uma perda. E isso é um ponto de sofrimento para o obsessivo, pois quando ele não se decide, ele acaba perdendo do mesmo jeito.

Complexo, né? Enquanto escrevia este texto me peguei no trocadilho do nome de Hardin, que é Hard (difícil em inglês) + In (dentro), como exatamente o conhecemos: difícil por dentro.

É claro que este texto não pretende diminuir o sofrimento de Tessa frente à esta situação. Todos sabemos que ela foi a vítima da aposta. O intuito aqui é compreender porque Hardin fez o que fez. Em outro momento podemos discutir os impactos deste trauma para ela. Sem dúvida renderia muitas conclusões, a começar da que é a partir daí, que ela passa a ser mais forte.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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