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After no Divã #27 | After e as possibilidades do amor
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 16.Aug ARQUIVADO EM:Colunas

“É possível ter mais de um amor na vida?”. Recebi esta pergunta no Instagram (@afternodiva) e achei pertinente discutir a resposta a partir dos triângulos amorosos que se formam em After: Tessa, Noah/Zed e Hardin; Trish, Vance e Ken; Landon, Dakota e Nora, dentre outros. O amor é explorado na obra de Anna Todd sob diversas facetas, mas hoje vou me ater a estas ‘surpresas’ das parcerias amorosas.

Pelos resultados que conhecemos de cada história, já podemos concluir que sim, é possível encontrar um novo amor, ainda que se considere o passado. 
A vida é cheia de mudanças, de novos encontros e de suas próprias descobertas. Todavia, não há fórmula pronta e nem regra. Cada um tem a sua história e a sua versão de si que poderá (ou não) dividir com alguém.

Tessa amava Noah de um jeito fraternal, respeitoso, e foi sim muito feliz com a segurança que encontrou nele durante toda a vida. Não faz sentido compará-lo com Hardin se pensar que ela era feliz com o relacionamento que tinha. Sem conhecer outro mundo, ela parecia estar muito bem neste, tanto que gostaria que Noah tivesse ido para a faculdade com ela no primeiro momento. Com Hardin foi uma outra história, sobre a descoberta de si mesma. Uma vez que conheceu outra versão de si, percebeu que não poderia ser mais feliz do jeito que era e “viciou-se” em ser a Tessa que experimentava com Hardin.

Trish é uma mulher de um grande amor. A verdade é que ela nunca amou Ken como amou Vance. Embora a vida a tenha encaminhado para o casamento com um terceiro, ela nunca deixou de amar quem ela era quando estava com Vance. Neste caso, ela tentou criar uma versão de si que era ‘necessária’ àquela situação e acabou não sendo feliz. Todavia, ao final encontrou um novo amor e se casou novamente, mas desconfio que a relação com Vance jamais tenha morrido para ela (vide o fatídico dia em que Hardin flagrou os dois). 

Vance, ao encontrar Kimberly, vê outra chance para si mesmo, e isso faz despertar o amor novamente. Bem como Ken, que parece encontrar em Karen, o seu primeiro (e real) amor.

Landon é como Tessa. Amava Dakota, mas foi praticamente “obrigado” a desistir dela, desde que não foi mais uma opção ficar com ela. Nora despertou nele uma nova versão, que ele estranhou a princípio, mas preferiu experimentar mais até ter a certeza de que queria seguí-la pelo resto da vida.

O amor aparece de diversas formas. Algumas são por circunstâncias da vida, por opções, por mudanças de paradigmas e outras nem sempre por escolhas. A experiência faz com que ele floresça sem regras, sem pudor, ele simplesmente acontece. O ser humano muda, conhece novas prioridades e novas versões de si mesmo; e tende a amar aquele que partilhar disso.

Resumindo, sim, é possível ter outros amores na vida a partir das nossas próprias descobertas. Já disse uma vez que o que amamos no outro é na verdade o que ele desperta em nós. Por isso, amamos uma versão de nós mesmos e de quem somos quando escolhemos dividir a vida com alguém. 

Não vale a pena acreditar em um amor único se assim intitular a sua relação antes de vivê-la intensamente. Vale a pena viver, se descobrir e ser feliz, para então perceber que o seu relacionamento é pautado pelo amor. Não há rótulos, nem gênero, nem certo, nem errado. Há a sua experiência totalmente imperfeita, porque o verdadeiro amor está nas imperfeições, no esforço e na sua compreensão de que é possível superar as diferenças de alguém se aquilo lhe trouxer alguma satisfação real.

Amar é compreender-se, valorizar-se e respeitar a sua vontade de ser feliz. Se encontrar uma única pessoa que te desperte isso, legal; mas não significa que não poderá encontrar diversas vezes, porque dentre as várias versões de si, você acaba ficando com a que mais desperta o que há de melhor em você. Como Hardin. Como Tessa.

After No Divã #26 | Hardin, Smith e a parceria pelos traços identificatórios
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 07.Aug ARQUIVADO EM:Colunas

Muitas pessoas querem descobrir quem irá interpretar Trevor na continuação do filme, em After We Collided. Outras só querem saber se teremos o Smith para contracenar com Hardin nas cenas que podem ser as mais fofas da trama. 🙂 E hoje vamos falar sobre a identificação dos traços entre os irmãos de sangue, filhos de Christian Vance.

Smith tem um papel muito importante na história, porque revela vários traços da personalidade de Hardin. E não é assim que conhecemos as pessoas, a partir das suas relações com os outros? Por mais que Hardin resista a ideia de cuidar dele na primeira noite em que Kimberly pede esse favor à Tessa, não há como negar que ao final ele acaba curtindo a experiência. Como em diversos momentos de After, Hardin vive várias “primeiras vezes” desde que se permite a olhar para algo que vai além de si mesmo.

A priori, o pequeno já explicita uma mensagem clara de Hardin à Tessa, endereçando-a o desejo de nunca ter filhos, porque detestava crianças. E ainda no primeiro dia de contato, Tessa ouve Hardin dizer ao garoto que não iria se casar com ela – o que depois renderá uma discussão.

Para além de Hessa, Smith também traz algo importante sobre a identificação. Mesmo com toda a disponibilidade de Tessa, é com a ‘grosseria’ e com o prazer (quase consciente) de quebrar as barreiras de Hardin que ele opta em desfrutar. O pequeno faz perguntas difíceis e coloca o irmão mais velho no lugar do “não saber”, em qualquer chance que tenha de fazer isso. É até engraçado como ele tira Hardin do eixo e se identifica a ele justamente pela forma “inapropriada” de contato. Mesmo Tessa e Kimberly dando atenção, é a Hardin que ele sempre se direciona.

Em alguns momentos Smith parece ser uma versão mini de Hardin, numa personalidade resguardada, impetuosa, inquieta e desconfortante para o outro. Eles se parecem em detalhes importantes, como se incomodar com personalidades muito afetuosas, como aquelas que os circundam. Incomodar o lugar comum dos outros e “quebrar regras”, como as de que uma criança (não necessariamente) quer se sentir amada publicamente, parece funcionar bem no caso deles.

Há outro ponto de identificação importante entre os dois: a partilha da tragédia familiar. Apesar de terem o mesmo pai, sofreram perdas parentais importantes na infância: Hardin perdeu a figura paterna, enquanto Smith perde a figura materna. São duas “mortes” experimentadas por lutos distintos, mas que perpetuam o trauma de que uma figura importante a qualquer momento pode partir. Smith sempre pergunta a Hardin se as pessoas vão morrer, e Hardin se pergunta o tempo inteiro até quando Tessa irá ficar.

Smith vê em Hardin a figura do anti heroi, aquele com a tragédia explícita, como se ele pudesse examinar tudo o que lhe aconteceu, mas acreditar que ainda pode haver compaixão. 

É uma relação de irmãos sem querer. Smith, mesmo saber, vai atrás daquele enigma que parece ser seu (e que poderia ser seu no futuro), de um sujeito que não se abre ao outro como as outras pessoas fazem. O indecifrável é o que chama a atenção do garoto. E vice versa. Há algo de curioso que faz Hardin aceitar a companhia de sua versão mirim.

A relação entre eles é um belo exemplo de que as identificações nem sempre acontecem pelo afeto excessivo. Tessa e Smith revelam que há algo no “misterioso” que faz o sujeito ir atrás. Por isso é muito difícil rotular uma relação “perfeita”, porque o significado disso é muito singular. E que Smith sirva de exemplo para quem ainda não compreende a mensagem final de After: é o mistério que mantém o respeito que se conquista.

After No Divã #25 | Por que é tão difícil pra Hardin se sentir amado?
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 24.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Os maiores problemas entre Hessa sempre estiveram relacionados à insegurança de Hardin. Até ele conseguir acreditar e aceitar que era digno de amor, foi uma longa jornada, especialmente pra Tessa, que vivia se equilibrando na corda bamba pra conseguir fazer ele acreditar nisso.

Dentre as situações mais difíceis que eles passaram, a maioria delas estava relacionada à insegurança dele. A começar pela aposta, onde ele se escondeu do amor e temeu a recusa dos amigos – o que eu já até discuti em detalhes no texto “Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?”. De tão inseguro, preferiu apegar-se a um jogo ao invés da amada, que para o caso de ser recusado, já estaria “blindado” desse sofrimento.

Quando vão morar juntos, especificamente no segundo livro “Depois da Verdade”, Hardin abre de vez a “caixinha da insegurança”. Bastou um grunhido de Tessa com o nome de Zed enquanto dormia, pra ele sair de casa, beber, perder o rumo, não dar notícia, e acabar sendo a causa de um acidente com ela no trânsito. Motivo esse, inclusive, que será o estopim pra Tessa sair do apartamento e eles ficarem separados pelos longos nove dias sem comunicação (como tratei no texto anterior).

Os grandes gargalos do relacionamento deles sempre tiveram a ver com esta insegurança: o ciúme excessivo com Zed (e a quase prisão de Hardin) quando ele destrói os patrimônios da universidade em uma briga; o “boicote” à moradia de Tessa em Seattle; a implicância com Trevor, porque aparentemente ele seria ‘perfeito’ pra Tessa; até um presente de Natal. Para quem não se lembra, Hardin deu a ela uma pulseira e acertou na escolha, mas logo sofreu porque Ken e Karen também a presentearam com o mesmo artefato, só que de uma marca famosa. Hardin sentiu-se tão inseguro, que em um capítulo ele descreveu o medo de que Tessa preferisse usar o presente dado por Ken, e não o dele. 

Nos mínimos detalhes, no dia a dia, Hardin demonstrava-se inseguro. Não se achava digno de amar, de amor, de aceitar que era amado. E isso traz consequências muito importantes para o casal. 

E porque é tão difícil pra ele? Hardin sempre viveu em um ambiente propício para que a insegurança se manifestasse: a hostilidade de uma “rejeição” e a falha de uma casa sem comunicação. Para ele o pai não era digno de amor, nem a mãe, já que fora abandonada. Amor era sinônimo de dor. E teria ele outra opção senão desconfiar quando um grande amor bateu à sua porta dizendo que daria pra ser feliz? O pouco tempo que teve acesso a isso na infância (se é que teve), foi perdido muito cedo.

Hardin aprendeu muito jovem que as relações familiares, em especial os casamentos, estavam fadados ao fracasso. Percebam como é assim que ele trata desse assunto com Tessa. Ele parece ter um receio de se casar, de “colar esse rótulo” e perder o que conseguiu, ou se frustrar demais envolvendo em algo que “nunca dá certo”. É claro que ele queria viver a vida toda com Tessa desde o princípio, mas admitir isso era muito arriscado pra ele.

Obviamente o casamento não garante felicidade eterna, mas o objetivo é problematizar a desconfiança do personagem em acreditar em uma família e ter que reviver traumas como os que o marcaram, novamente. Até então seria melhor manter como estivesse, onde ele poderia escapar, sem ter que viver a dor de um abandono “oficial”, que envolveria até trâmites burocráticos e que sem dúvida seria bem mais difícil de descolar.

Além do que viveu no passado, a falta de informação ainda contribuiu para o não fechar dessa conta. Uma pessoa insegura precisa de informação. Quanto menos ela sabe, mais ela cria, mais ela fantasia, mais ela desconfia. O que fez Ken começar a beber e abandonar Trish? Ele nunca soube (antes de Tessa). Como as pessoas se sentiam em relação a ele? Ele nunca soube, pois sempre preferiu se esconder. É claro que uma pessoa chegar dizendo amá-lo com todas as suas forças não viraria essa chave de maneira tão simples.

Hardin nunca se sentiu amado e preferia se manter assim até então. Enquanto não amava, não doía. Adotou um perfil pra afastar as pessoas para que elas nem tentassem provar pra ele o contrário. E aí alguém que “enfrenta” toda a barreira que ele erguia o faz no mínimo questionar: “porque eu”? E é isso que ele faz desde o princípio com Tessa, por não se achar digno. De forma inconsciente, ele poderia até supor que quem estaria jogando com ele era ela, já que não seria possível alguém se importar tanto.

Mas Tessa jamais desistiu. Quando ele enfim começa a acreditar que poderia ser digno do amor de alguém que ele surpreendentemente também amava, isso o faz perder a cabeça. O medo de sofrer e a ansiedade de perder o faz meter os pés pelas mãos, sempre. E ele parece errar de forma inconsciente com Tessa pra “testar” esse amor a todo custo. Não está em jogo justificar o (mal) tratamento dele com ela em muitos momentos, mas apontar que uma demonstração de afeto para ele não bastava. Ele precisava de mais, precisava destruir pra saber se haveria construção possível. É como se ele precisasse ter enlouquecidamente a certeza de que a muralha era forte e que ele poderia se ancorar sem se machucar com um novo abandono. E Tessa foi forte, bem mais que ele. Segurou a onda até o ponto em que dependia dela. Todavia, a insegurança não é resolvida apenas quando se aposta fielmente na confiança de alguém. Ela tem que começar de dentro. Não é em Tessa que ele precisava confiar, mas em si mesmo. Aquela certeza do início, de que ele precisava estar colado nela para ser quem ela precisava, começa a cair por terra. Era preciso ancorar em si, na crença de que poderia ser amado, para então ter o que doar ao outro além de incerteza. Ele precisou se afastar, se conhecer, para devolver à Tessa um homem que aceitava o amor, mas antes de tudo, aceitava a si mesmo. Sendo digno de si, foi digno de ter um mundo de sucesso e recompensas, como o que aconteceu ao final.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

After No Divã #24 | Os dias da separação entre Hessa
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 18.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Se tem algum momento da série After que a gente torce pra passar rápido, sem dúvida é a parte em que o casal protagonista fica separado fisicamente. O romance envolvente de Hardin e Tessa nos faz querer torcer incessantemente para que eles nunca se separem. Porém, em alguns momentos a distância parece ter feito bem para o relacionamento, e hoje irei analisar três “separações” decisivas para a união deles, determinadas coincidentemente (ou não), pela distância.

É estranho perceber como a razão e o pensar sobre “o que estavam fazendo” só se torna possível enquanto estavam separados fisicamente. Juntos, a princípio, só havia emoção, paixão sem limites e consequências nem sempre das mais favoráveis. Por mais que seja deliciosa a leitura deles juntos, a gente vê que só conseguem dar continuidade ao relacionamento quando davam um passo atrás para pensar. Da passagem de paixão para amor tem esse ponto fundamental: a relação ardente precisa ganhar espaço para amadurecer e virar amor, e isso é inevitável, a medida em que o casal começa a ter que conviver com a vida social, laboral e familiar do outro.

Pois bem. Comecemos pelos difíceis nove dias em que ficaram separados em “Depois da Verdade”, quando Hardin vai pra Inglaterra para se ‘recuperar’ das recentes discussões e Tessa hospeda-se na casa de Landon, depois de sofrer um acidente de carro ao pegar o telefone pra ler uma mensagem do amado. O primeiro sinal de que as coisas não iam bem partiu da insegurança de Hardin ao ver que Tessa disse o nome de Zed enquanto dormia. Enfurecido, ele vai para um bar, dorme na casa de uma conhecida, mente para Tessa que saiu cedo pra tomar café com o pai e não dá mais notícias, até dizer outra mentira com a mensagem no celular que causou o acidente dela. Amparada por Landon, ela decide sair do apartamento, e ele, frustrado por ela não voltar pra casa arrependida, decide ir pra casa da mãe em outro país.

Esse erro foi decorrente do perdão de Tessa depois da aposta. Hardin apostou que ela o perdoaria novamente, e não aconteceu da forma como ele esperava. Foram 9 dias, um esperando o contato do outro, sem sucesso. Nessa primeira separação, os dois se entregam (pelos relatos da história), à vontade de fingir que nada tinha acontecido, pra jamais ficarem longe de novo.

Nessa separação não há razão. Apesar dos sucessivos erros cometidos pelos dois, eles só não voltaram antes por não dizerem ao outro como estavam se sentindo realmente. Evitaram a comunicação nos primeiros dias até Hardin trincar a tela do telefone e perderem a chance de contato de vez. A falta de comunicação, nessa situação, só piorou as coisas. Criaram fantasias, não tinham informação e ambos se apagaram de suas vidas, se entregando à dias terríveis de angústia, sem qualquer explicação. Uma separação totalmente movida pela emoção, pela raiva, pelo descontentamento e principalmente, pela falta de comunicação.

A segunda separação importante foi a ida de Tessa para Seattle. Não isenta de um erro (mais uma vez ocasionado pela insegurança de Hardin), quando ele tenta boicotar a mudança dela pra cidade que sempre quis, Tessa vai mesmo assim. Aqui a relação está mais madura, e apesar de sucessivos problemas até que Hardin compreendesse a importância daquilo pra ela, o namoro deles permanece. Não há uma separação por raiva ou implicância. Tessa até diz em alguns momentos que se quisesse ficar com Hardin, precisaria se distanciar dele por algum momento e bancar as suas próprias escolhas, por mais que fosse difícil ficar longe.

E dessa vez faz bem. Por mais que ele frequentasse constantemente a casa dos Vance, eles criaram saídas para se manter distantes e juntos mesmo assim. E pra isso não foi preciso abrir mão da paixão, já que mantinham uma relação sexual ativa. A distância fez Tessa crescer profissionalmente e amar ainda mais o parceiro, a partir de pequenas atitudes quando ele demonstrava (menos que minimamente), compreender a escolha dela.

A segunda separação foi determinante para a terceira e para o sonhado final feliz. Ocasionado mais uma vez pela insegurança de Hardin com o episódio da Inglaterra que ele diz que nunca a iria merecer, ela volta para os EUA determinada a ir para Nova Iorque viver a sua vida. E de lá, com todas as saídas que cria (e com as constantes visitas de Hardin), ela compreende como alguém de fora da situação, que era com ele mesmo que gostaria de ficar o resto de sua vida. Há alguns relatos de tentativas de outros relacionamentos, mas em uma frase marcante, Tessa diz “É difícil entrar em um novo relacionamento quando o seu coração já tem dono”. E de fora, com várias idas e vindas, ela percebe que junto com o amor, a paixão por aquele homem jamais iria acabar.

Essa ultima separação foi decisiva. Ouso dizer que sem ela, talvez eles jamais se acertassem e ficariam constantemente nesse jogo de ir e voltar que só causava sofrimento. Ao final vemos um relacionamento bem mais maduro, não só pelo avançar da idade deles, mas pela compreensão de quem eram antes mesmo de estarem juntos. Se fosse para fazer uma analogia, diria que eles só deram certo depois que entenderam que um relacionamento saudável não é feito por duas metades da laranja, mas por laranjas inteiras (e diferentes) que escolhem por opção própria compartilharem a companhia, cada qual com a sua singularidade.

After No Divã #23 | O que há por trás dos pesadelos de Hardin Scott?
POSTADO POR Douglas Vasquez EM 10.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

“Cadê você, Scott?”. “Eu vi quando ele saiu do bar. Tenho certeza de que está aqui”, diz outro homem. Saio da cama e sinto o piso frio sob os meus pés. No começo achei que fosse o meu pai e seus amigos, mas agora acho que não. “Saia, saia de onde você está”, a voz mais grave grita. “Ele não está aqui”, diz a minha mãe assim que termino de descer a escada e vejo quem são. Minha mãe e quatro homens. “Ei, olha só o que temos aqui”, diz o homem mais alto. “Quem diria que a mulher do Scott era tão gostosa?”. Ele segura a minha mãe pelo braço e a puxa para fora do sofá. […] “Mãe!” Exclamo e corro até a sala de estar. “Hardin, volta lá pra cima”. […] “Acho que ele quer ver”, diz o homem machucado, jogando-a no sofá. Acordo num sobressalto e sento na cama.

O trecho acima é de um dos relatos mais detalhados dos sonhos de Hardin, escrito pela Anna Todd no livro “After: Depois da Verdade”, no momento em que Hardin perde a companhia de Tessa, depois dela descobrir sobre a aposta. Neste mesmo capítulo vemos a narrativa de Hardin dizendo que desde que ela foi embora, toda noite agora era assim.

Mas afinal, o que são esses pesadelos de Hardin? Será que são apenas lembranças de um dos piores dias de sua vida? E porque Tessa tinha o poder de afastá-lo destes momentos? Antes de responder a essas questões, precisamos recorrer à teoria dos sonhos.

Uma das obras mais clássicas da Psicanálise é a Interpretação dos Sonhos, criada pelo pai da teoria, Sigmund Freud. Para ele, os sonhos são fenômenos psíquicos onde realizamos desejos inconscientes. Freud parte do princípio de que todo sonho tem um significado, embora oculto, da realização de desejos. Os desejos reprimidos na vida de vigília muitas vezes estão relacionados com os nossos desejos mais primitivos vetados fortemente pela moral vigente. Interpretar um sonho significa conferir-lhe um sentido, isto é, ajustá-lo à cadeia de significantes.

Em suma, o sonho é uma das manifestações do inconsciente. Diz sobre o passado (e não sobre o futuro), sobre desejos e traumas recalcados, daqueles que a gente não dá conta de dizer nem de explicar e que são manifestados através de fragmentos em nossos sonhos. Em um processo de análise a narrativa de um sonho é muito importante. É através desta manifestação, ainda que contada de forma desconexa e “sem sentido”, que o analista pode perceber como se manifestam enigmas recalcados que mais cedo ou mais tarde trarão significados importantes ao paciente.

E o que faz Hardin afinal quando passa boa parte da vida revivendo esse momento enquanto dorme? Como podemos ver acima, o primeiro fator para que estes pesadelos fossem recorrentes para ele é o fato de que ele não trazia isso para a consciência. Ou seja, não falava sobre isso. Para não ter que lidar com esse trauma de uma forma direta, ele preferiu recalcar – de forma inconsciente. Porém, o inconsciente se manifestava sempre que ele estava sozinho, à mercê de lembranças que ele aparentemente ignorava.

Quando Tessa chega ela não impede que os pesadelos aconteçam, mas ela desempenha um papel fundamental para que eles diminuam: ela dá a chance a Hardin de falar sobre eles. Quando ele externa isso, a constância parece cair drasticamente. Não isola, porque ele até então não havia tratado disso, mas falar sobre isso já parece ajudar.

Outro ponto importante recalcado no inconsciente de Hardin tem a ver com o enfrentamento ao pai.  O vilão pra ele deste episódio sempre foi Ken – mais até do que os próprios estupradores, e evitar o pai a qualquer custo o colocava à prova de um trauma não resolvido. Quando Tessa aparece e ele começa a frequentar mais a vida de Ken (até então o conhecido pai para ele), isso também parece se dissolver. Por mais que a raiva perdurasse, parece que conhecer o ‘vilão da história’ o afetaria menos. Quando mais se conhece uma pessoa e os motivos dela para tais atos, menos se julga, menos se sofre – vide exemplo de Molly, Ken e até o próprio Hardin. O leitor não odeia Hardin apesar dos atos porque tem a chance de ouví-lo, de compreender a sua história. E quanto mais conhece Ken, menos dramático o sonho fica.

Os pesadelos também revelam outro importante característica do protagonista de After: a insegurança. O sentimento de impotência vivido enquanto a mãe era violentada fragiliza Hardin, coloca-o na defensiva e incentiva a violência física. Enquanto não podia fazer nada enquanto criança, vai descarregar a raiva por via física. Ele não quer ouvir nem conhecer os motivos de seus adversários, quer se vingar. E esses sonhos constantes alimentavam esse desejo incessante de se vingar de algo que o seu inconsciente insistia em repetir noite após noite.

Com Tessa ele continua a sonhar, porque permanece inseguro, mas a imagem de poder ter ‘sob a sua custódia’ uma mulher que ele poderia proteger, inclusive de instintos sexuais de outro homem, faz com que ele também dissipe, de certa forma, o conteúdo desses sonhos do cenário onde ele não podia fazer nada. Tessa ameniza essa dor e dá a ele a chance de ‘protegê-la’, mesmo que esse fosse um pensamento só da cabeça dele. A companhia dela acalmava a impotência dele frente à situação violenta. Desta vez, ele poderia fazer alguma coisa. E isso traz alívio.

Todavia, o poder dela de acalmá-lo é consciente, concreto. Ela interrompia a sensação violenta do sono quando acordava-o para lhe tranquilizar. O verdadeiro papel de Tessa em relação aos pesadelos de Hardin é à função que ela desempenhava nele, a sensação de proteção e amor que ela despertava.

Ao longo dos anos os pesadelos vão diminuindo, porque apesar de todos os conflitos nos relacionamentos, Hardin se vê obrigado a aprender a lidar com os seus afetos. E isso também muda muito as coisas. Enquanto enfrenta o seu passado, diz sobre a sua raiva e se vê obrigado a agir de maneiras distintas para não perder algo que lhe importava na vida, ele vai ganhando segurança de si mesmo e a demonstração de afeto deixa de ser pra ele uma violência. Já disse várias vezes isso, mas nunca acho demais repetir: o que muda Hardin não é diretamente Tessa, mas a capacidade que ele vai adquirindo de lidar com os seus próprios sentimentos. 

É um processo longo, doloroso e cheio de consequências, inclusive para a parceira que se coloca à mercê desse aprendizado junto com ele. Mas afinal, o que é o amor senão a capacidade de ouvir o outro? E aí sim, neste papel, Tessa se faz fundamental para o desenvolvimento de um Hardin disposto a lidar consigo mesmo.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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