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After no Divã #29 | Hessa, o jogo de idas e vindas e a necessidade de inserir um outro na relação
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 04.Sep ARQUIVADO EM:Colunas

Hardin quer ficar com Tessa, mas encontra Molly quando eles brigam. Tessa procura Zed nos momentos em que Hardin a magoa. Hardin procura uma antiga parceira quando ouve Tessa chamar por Zed em um sonho. Tessa começa a observar Trevor quando não está bem com Hardin.

Mas afinal, de onde vem essa insistência em colocar um “terceiro” na relação, especialmente quando uma parte dela cai? Em uma explicação simplista talvez fosse apenas para “irritar o outro” ou o fazer dar valor quando está prestes a perder. E sim, por mais infantil que possa parecer esta estratégia, no fundo o que ela pretende é estampar a possível perda da parceria amorosa quando um da relação não se sente valorizado. O fato é que é muito mais do que isso. 

Em vários textos desta coluna eu já trouxe o conteúdo de que o que amamos no outro é o que ele desperta em nós: Tessa ama Hardin de uma forma diferente da que amava Noah, porque na realidade o que ela ama é a mulher que Hardin a desperta; é como se ela amasse ser quem é quando está com ele – e vice versa. E é isso que mantém em uma relação. Se não há sentimento no que o outro te traz, então não há amor.

 A definição do amor passa também por uma aceitação social de que se é desejado. Saber que alguém dedica a si as suas pulsões sexuais traz prazer ao ego e insere o sujeito no desejo de alguém. É como se o amor, mesmo que em uma relação, fosse também um auto amor, um ‘se sentir amado’, que mantém o sujeito gozando da relação, independente de tudo o que tenha que enfrentar para isso. O ponto complexo da relação deles é quando o desejo vira só gozo, e um gozo próprio, que, no caso de Tessa, custa um sofrimento de manter conquistando o “inconquistável”, o que nenhuma outra mulher teve. Mas, para isso, ela também precisou fazer Hardin perceber (e aceitar) que também só gozava e que assim como era pra ela, pra ele também poderia ser um ambiente inseguro. Não era porque ela o amava que as regras seriam sempre dele.

Inserir um outro nesse vai e vem pulsional (de perde e ganha) os faz também gozar da posição de “sou desejada para além do seu olhar”. E, lá no fundo, há também o prazer de se satisfazer e ter a certeza de que se perder aquele sujeito que lhe deseja hoje, haverá outros e outras no mundo capaz de também lhe desejar.

O que estou querendo dizer com isso é que não é só um jogo endereçado a um outro quando se procura um terceiro. É também de uma jogada narcísica de tentar pertencer ao desejo de alguém, uma vez que aquele está abalado. Por isso uma relação amorosa estável é socialmente taxada como “felicidade” para o conceito social. Não há nada melhor do que ser aceito no desejo de alguém, especialmente naquele que eu também desejo. E é sim um trabalho árduo, de idas e vindas, porque o outro também precisa bancar o seu próprio gozo, inclusive em outras esferas. Já discuti aqui sobre o que mantém Hardin na aposta mesmo já amando Tessa, e apresento-lhes um novo argumento, para dizer que ele também estava inserido em um outro desejo, de ser reconhecido pelos amigos por manter um semblante de quem poderia controlar o que sentia, sem perdas –  o que cairá por terra quando o medo de perder o desejo de Tessa passará a ser sua prioridade narcísica.

E é nessa mola do desejo que há também o prazer. Eles parecem querer (inconscientemente, é claro) testar o que é seguro e o que não é. A certeza de ser inscrito no desejo do outro traz consequências, mais ou menos dolorosas, a partir da insegurança do sujeito. Enquanto faz Tessa sofrer, Hardin é quem sofre mais pela insegurança. Até ter certeza que ele estava inscrito no desejo dela, precisou perdê-la várias vezes.

E quando isso para? Quando Hessa, especialmente na maturidade de Tessa, dá um ponto de basta nesta mola do desejo que vai e vem, e mostra a Hardin que uma relação não é jogo: não preciso um ganhar para o outro perder. Uma relação é uma parceria bancada pela segurança de um desejo, de um sujeito que não é “todo” seu. Ele é repartido, em vários pontos de desejo, mas que escolhe partilhar o sexual, endereçado a ti. Quando os dois aceitam que há desejo para além de si próprio, há relação possível.

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