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After No Divã #25 | Por que é tão difícil pra Hardin se sentir amado?
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 24.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Os maiores problemas entre Hessa sempre estiveram relacionados à insegurança de Hardin. Até ele conseguir acreditar e aceitar que era digno de amor, foi uma longa jornada, especialmente pra Tessa, que vivia se equilibrando na corda bamba pra conseguir fazer ele acreditar nisso.

Dentre as situações mais difíceis que eles passaram, a maioria delas estava relacionada à insegurança dele. A começar pela aposta, onde ele se escondeu do amor e temeu a recusa dos amigos – o que eu já até discuti em detalhes no texto “Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?”. De tão inseguro, preferiu apegar-se a um jogo ao invés da amada, que para o caso de ser recusado, já estaria “blindado” desse sofrimento.

Quando vão morar juntos, especificamente no segundo livro “Depois da Verdade”, Hardin abre de vez a “caixinha da insegurança”. Bastou um grunhido de Tessa com o nome de Zed enquanto dormia, pra ele sair de casa, beber, perder o rumo, não dar notícia, e acabar sendo a causa de um acidente com ela no trânsito. Motivo esse, inclusive, que será o estopim pra Tessa sair do apartamento e eles ficarem separados pelos longos nove dias sem comunicação (como tratei no texto anterior).

Os grandes gargalos do relacionamento deles sempre tiveram a ver com esta insegurança: o ciúme excessivo com Zed (e a quase prisão de Hardin) quando ele destrói os patrimônios da universidade em uma briga; o “boicote” à moradia de Tessa em Seattle; a implicância com Trevor, porque aparentemente ele seria ‘perfeito’ pra Tessa; até um presente de Natal. Para quem não se lembra, Hardin deu a ela uma pulseira e acertou na escolha, mas logo sofreu porque Ken e Karen também a presentearam com o mesmo artefato, só que de uma marca famosa. Hardin sentiu-se tão inseguro, que em um capítulo ele descreveu o medo de que Tessa preferisse usar o presente dado por Ken, e não o dele. 

Nos mínimos detalhes, no dia a dia, Hardin demonstrava-se inseguro. Não se achava digno de amar, de amor, de aceitar que era amado. E isso traz consequências muito importantes para o casal. 

E porque é tão difícil pra ele? Hardin sempre viveu em um ambiente propício para que a insegurança se manifestasse: a hostilidade de uma “rejeição” e a falha de uma casa sem comunicação. Para ele o pai não era digno de amor, nem a mãe, já que fora abandonada. Amor era sinônimo de dor. E teria ele outra opção senão desconfiar quando um grande amor bateu à sua porta dizendo que daria pra ser feliz? O pouco tempo que teve acesso a isso na infância (se é que teve), foi perdido muito cedo.

Hardin aprendeu muito jovem que as relações familiares, em especial os casamentos, estavam fadados ao fracasso. Percebam como é assim que ele trata desse assunto com Tessa. Ele parece ter um receio de se casar, de “colar esse rótulo” e perder o que conseguiu, ou se frustrar demais envolvendo em algo que “nunca dá certo”. É claro que ele queria viver a vida toda com Tessa desde o princípio, mas admitir isso era muito arriscado pra ele.

Obviamente o casamento não garante felicidade eterna, mas o objetivo é problematizar a desconfiança do personagem em acreditar em uma família e ter que reviver traumas como os que o marcaram, novamente. Até então seria melhor manter como estivesse, onde ele poderia escapar, sem ter que viver a dor de um abandono “oficial”, que envolveria até trâmites burocráticos e que sem dúvida seria bem mais difícil de descolar.

Além do que viveu no passado, a falta de informação ainda contribuiu para o não fechar dessa conta. Uma pessoa insegura precisa de informação. Quanto menos ela sabe, mais ela cria, mais ela fantasia, mais ela desconfia. O que fez Ken começar a beber e abandonar Trish? Ele nunca soube (antes de Tessa). Como as pessoas se sentiam em relação a ele? Ele nunca soube, pois sempre preferiu se esconder. É claro que uma pessoa chegar dizendo amá-lo com todas as suas forças não viraria essa chave de maneira tão simples.

Hardin nunca se sentiu amado e preferia se manter assim até então. Enquanto não amava, não doía. Adotou um perfil pra afastar as pessoas para que elas nem tentassem provar pra ele o contrário. E aí alguém que “enfrenta” toda a barreira que ele erguia o faz no mínimo questionar: “porque eu”? E é isso que ele faz desde o princípio com Tessa, por não se achar digno. De forma inconsciente, ele poderia até supor que quem estaria jogando com ele era ela, já que não seria possível alguém se importar tanto.

Mas Tessa jamais desistiu. Quando ele enfim começa a acreditar que poderia ser digno do amor de alguém que ele surpreendentemente também amava, isso o faz perder a cabeça. O medo de sofrer e a ansiedade de perder o faz meter os pés pelas mãos, sempre. E ele parece errar de forma inconsciente com Tessa pra “testar” esse amor a todo custo. Não está em jogo justificar o (mal) tratamento dele com ela em muitos momentos, mas apontar que uma demonstração de afeto para ele não bastava. Ele precisava de mais, precisava destruir pra saber se haveria construção possível. É como se ele precisasse ter enlouquecidamente a certeza de que a muralha era forte e que ele poderia se ancorar sem se machucar com um novo abandono. E Tessa foi forte, bem mais que ele. Segurou a onda até o ponto em que dependia dela. Todavia, a insegurança não é resolvida apenas quando se aposta fielmente na confiança de alguém. Ela tem que começar de dentro. Não é em Tessa que ele precisava confiar, mas em si mesmo. Aquela certeza do início, de que ele precisava estar colado nela para ser quem ela precisava, começa a cair por terra. Era preciso ancorar em si, na crença de que poderia ser amado, para então ter o que doar ao outro além de incerteza. Ele precisou se afastar, se conhecer, para devolver à Tessa um homem que aceitava o amor, mas antes de tudo, aceitava a si mesmo. Sendo digno de si, foi digno de ter um mundo de sucesso e recompensas, como o que aconteceu ao final.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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