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After No Divã #23 | O que há por trás dos pesadelos de Hardin Scott?
POSTADO POR Douglas Vasquez EM 10.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

“Cadê você, Scott?”. “Eu vi quando ele saiu do bar. Tenho certeza de que está aqui”, diz outro homem. Saio da cama e sinto o piso frio sob os meus pés. No começo achei que fosse o meu pai e seus amigos, mas agora acho que não. “Saia, saia de onde você está”, a voz mais grave grita. “Ele não está aqui”, diz a minha mãe assim que termino de descer a escada e vejo quem são. Minha mãe e quatro homens. “Ei, olha só o que temos aqui”, diz o homem mais alto. “Quem diria que a mulher do Scott era tão gostosa?”. Ele segura a minha mãe pelo braço e a puxa para fora do sofá. […] “Mãe!” Exclamo e corro até a sala de estar. “Hardin, volta lá pra cima”. […] “Acho que ele quer ver”, diz o homem machucado, jogando-a no sofá. Acordo num sobressalto e sento na cama.

O trecho acima é de um dos relatos mais detalhados dos sonhos de Hardin, escrito pela Anna Todd no livro “After: Depois da Verdade”, no momento em que Hardin perde a companhia de Tessa, depois dela descobrir sobre a aposta. Neste mesmo capítulo vemos a narrativa de Hardin dizendo que desde que ela foi embora, toda noite agora era assim.

Mas afinal, o que são esses pesadelos de Hardin? Será que são apenas lembranças de um dos piores dias de sua vida? E porque Tessa tinha o poder de afastá-lo destes momentos? Antes de responder a essas questões, precisamos recorrer à teoria dos sonhos.

Uma das obras mais clássicas da Psicanálise é a Interpretação dos Sonhos, criada pelo pai da teoria, Sigmund Freud. Para ele, os sonhos são fenômenos psíquicos onde realizamos desejos inconscientes. Freud parte do princípio de que todo sonho tem um significado, embora oculto, da realização de desejos. Os desejos reprimidos na vida de vigília muitas vezes estão relacionados com os nossos desejos mais primitivos vetados fortemente pela moral vigente. Interpretar um sonho significa conferir-lhe um sentido, isto é, ajustá-lo à cadeia de significantes.

Em suma, o sonho é uma das manifestações do inconsciente. Diz sobre o passado (e não sobre o futuro), sobre desejos e traumas recalcados, daqueles que a gente não dá conta de dizer nem de explicar e que são manifestados através de fragmentos em nossos sonhos. Em um processo de análise a narrativa de um sonho é muito importante. É através desta manifestação, ainda que contada de forma desconexa e “sem sentido”, que o analista pode perceber como se manifestam enigmas recalcados que mais cedo ou mais tarde trarão significados importantes ao paciente.

E o que faz Hardin afinal quando passa boa parte da vida revivendo esse momento enquanto dorme? Como podemos ver acima, o primeiro fator para que estes pesadelos fossem recorrentes para ele é o fato de que ele não trazia isso para a consciência. Ou seja, não falava sobre isso. Para não ter que lidar com esse trauma de uma forma direta, ele preferiu recalcar – de forma inconsciente. Porém, o inconsciente se manifestava sempre que ele estava sozinho, à mercê de lembranças que ele aparentemente ignorava.

Quando Tessa chega ela não impede que os pesadelos aconteçam, mas ela desempenha um papel fundamental para que eles diminuam: ela dá a chance a Hardin de falar sobre eles. Quando ele externa isso, a constância parece cair drasticamente. Não isola, porque ele até então não havia tratado disso, mas falar sobre isso já parece ajudar.

Outro ponto importante recalcado no inconsciente de Hardin tem a ver com o enfrentamento ao pai.  O vilão pra ele deste episódio sempre foi Ken – mais até do que os próprios estupradores, e evitar o pai a qualquer custo o colocava à prova de um trauma não resolvido. Quando Tessa aparece e ele começa a frequentar mais a vida de Ken (até então o conhecido pai para ele), isso também parece se dissolver. Por mais que a raiva perdurasse, parece que conhecer o ‘vilão da história’ o afetaria menos. Quando mais se conhece uma pessoa e os motivos dela para tais atos, menos se julga, menos se sofre – vide exemplo de Molly, Ken e até o próprio Hardin. O leitor não odeia Hardin apesar dos atos porque tem a chance de ouví-lo, de compreender a sua história. E quanto mais conhece Ken, menos dramático o sonho fica.

Os pesadelos também revelam outro importante característica do protagonista de After: a insegurança. O sentimento de impotência vivido enquanto a mãe era violentada fragiliza Hardin, coloca-o na defensiva e incentiva a violência física. Enquanto não podia fazer nada enquanto criança, vai descarregar a raiva por via física. Ele não quer ouvir nem conhecer os motivos de seus adversários, quer se vingar. E esses sonhos constantes alimentavam esse desejo incessante de se vingar de algo que o seu inconsciente insistia em repetir noite após noite.

Com Tessa ele continua a sonhar, porque permanece inseguro, mas a imagem de poder ter ‘sob a sua custódia’ uma mulher que ele poderia proteger, inclusive de instintos sexuais de outro homem, faz com que ele também dissipe, de certa forma, o conteúdo desses sonhos do cenário onde ele não podia fazer nada. Tessa ameniza essa dor e dá a ele a chance de ‘protegê-la’, mesmo que esse fosse um pensamento só da cabeça dele. A companhia dela acalmava a impotência dele frente à situação violenta. Desta vez, ele poderia fazer alguma coisa. E isso traz alívio.

Todavia, o poder dela de acalmá-lo é consciente, concreto. Ela interrompia a sensação violenta do sono quando acordava-o para lhe tranquilizar. O verdadeiro papel de Tessa em relação aos pesadelos de Hardin é à função que ela desempenhava nele, a sensação de proteção e amor que ela despertava.

Ao longo dos anos os pesadelos vão diminuindo, porque apesar de todos os conflitos nos relacionamentos, Hardin se vê obrigado a aprender a lidar com os seus afetos. E isso também muda muito as coisas. Enquanto enfrenta o seu passado, diz sobre a sua raiva e se vê obrigado a agir de maneiras distintas para não perder algo que lhe importava na vida, ele vai ganhando segurança de si mesmo e a demonstração de afeto deixa de ser pra ele uma violência. Já disse várias vezes isso, mas nunca acho demais repetir: o que muda Hardin não é diretamente Tessa, mas a capacidade que ele vai adquirindo de lidar com os seus próprios sentimentos. 

É um processo longo, doloroso e cheio de consequências, inclusive para a parceira que se coloca à mercê desse aprendizado junto com ele. Mas afinal, o que é o amor senão a capacidade de ouvir o outro? E aí sim, neste papel, Tessa se faz fundamental para o desenvolvimento de um Hardin disposto a lidar consigo mesmo.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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