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After No Divã #22 | After e a pulsão sexual
POSTADO POR Colunista Convidado EM 03.Jul ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Diversas vezes eu trouxe para esta coluna o que Hardin desperta em Tessa em vários sentidos – inclusive o sexual, mas nunca me debrucei com afinco ao significado do que é este ato para ele. Embora já tenha vivido variadas experiências com muitas mulheres, com Tessa há uma diferenciação clara, uma ressignificação e um divisor de águas. Não é só o amor que ela desperta nele. O sentido e o gozo que o encontro com ela proporciona acrescenta um ingrediente fundamental nesta ‘química’.

Comecemos pelo início da história de Hardin. A primeira cena sexual que ele presencia na vida é enquanto criança, durante um evento traumático onde ele assiste ao estupro da própria mãe, e que trará um significante importante pra ele: o sexo é um ato de violência. Naquele momento, a relação sexual é desvelada para ele como algo sem prazer, que marca claramente a ausência do pai e a indiferença da mãe sobre o assunto, por nunca ter discutido e por ter mantido verdade ocultas, como tratei no texto Trish, o não dito e a história construída por atos. Se fosse resumir em dois sentidos, o sexo para Hardin, pela primeira vez na vida, significou violência e desamparo parental.

Mais pra frente, como tratei no texto Natalie e a saída de Hardin para o passado traumático, o sexo vai aparecer para ele como uma punição pela vida. Já que fora ‘punido’ pelo ato sexual, é neste sentido que irá devolvê-lo ao mundo, claro que em uma saída inconsciente, até porque enquanto ‘punia’ o mundo pela sua visão distorcida de prazer, era a si mesmo que ele estava punindo. Ele estabelece várias parcerias que mais tarde ele irá confessar que não necessariamente se enquadrariam em um prazer da libido sexual em si, mas um alívio momentâneo, onde ele tentava circundar aquele assunto que ele esteve sempre às voltas, que mesclava um destino de alívio, de pertencimento social, mas também de angústia.
Até chegar em Tessa. O mistério da virgindade o atraiu por algum motivo, e não necessariamente o da aposta. Ele se coloca neste jogo para se ‘resguardar’ de qualquer possível encantamento pelo amor ou até para não perder a sua posição social frente aos outros, dada a sua insegurança.

Pela primeira vez ele toca uma mulher sem esperar algo em troca, de realizar-se no prazer. A primeira cena entre eles (a do lago) é praticamente Hardin desenhando o prazer da mulher, e quase nos dá a sensação de que era a  primeira vez em que ele via aquilo, e o prazer era todo em assistir uma mulher gozar frente a um instinto que ele dominava completamente.

Tessa é a primeira experiência que ele tem de que não precisa punir o mundo com o sexo. Repetidas vezes ele diz que um dos principais fatos de a querer tanto é porque nunca tinha dormido com outros homens, por isso a ideia de qualquer homem que chegue perto dela é um pavor, é como se quisessem tirar dele o único prazer sexual que só ele obteve.

Outro ponto fundamental do fato de nunca ter sido tocada é em relação a uma posição que confronta a imagem “manchada” da mãe dele na infância enquanto vários homens possuíam uma ‘mulher inocente’. Esse fator talvez explique a forma paranoica com que Hardin lida com a possibilidade de Tessa ter outros parceiros que não saberiam preservar a sua inocência, talvez por isso o ciúme excessivo, especialmente com Zed, que literalmente coloca a sexualidade dela em jogo.

Em alguns momentos Hardin parece querer involuntariamente punir Tessa. “Não é justo que ela seja inocente e se entregue a alguém como ele”, ele se sente culpado por tirar a inocência sexual de uma mulher (como experimentara no passado), ao mesmo tempo em que a deseja. Por isso essa mola do desejo, que vai e volta sem cessar, em uma relação que o prazer traz culpa e revela a angústia do amor e da possibilidade de perda que antes de Tessa ele nem imaginava, pois não tinha o que perder.

Um ponto importante levantado por uma leitora do After no Divã foi também em relação ao fato de Hardin sempre pedir para que Tessa dissesse o que ela queria no momento do sexo. Desde o primeiro contato deles nesse sentido, ele sempre insistiu para que ela falasse, talvez pela insegurança e pavor da cena da infância, para ter certeza que ela consentia com aquilo.

Todavia, não há como dizer sobre a sexualidade de Hardin sem dizer sobre nós leitores, afinal não é este um dos principais fatores de interesse pelo livro? A pulsão sexual da leitura é o que dividimos com Tessa. Entre as “quatro paredes” de um livro, a mulher experimenta um sexo sem pudor através de algo que é aceito socialmente (a leitura). Diz também sobre discussões femininas, principalmente na juventude, que (ainda) não são tão abertas quanto para os homens. Por isso, ao meu ver, dentro vários outros, After cumpre um papel que quebrar esse tabu. Por mais doentio que Hardin possa ter parecido no relacionamento com Tessa, ele é quem a ensina que ela também pode (e deve) ter prazer. Ele não aceita se satisfazer sozinho, põe ela pra falar e realizar as suas fantasias, o que muitas vezes é difícil ocorrer socialmente – como vejo nos relatos de consultório e como vemos na vida.

Mesmo tendo ciúme, ele é quem acaba fazendo dela mulher, mostrando a ela que deve ser desejada por um homem. Ele só não admite perder isso que ele nunca tinha tido até então, mas não podemos negar que ninguém na vida nunca a valorizou como mulher, que deseja sexualmente, como ele fez.

A questão do insuportável e do ciúme é uma questão dele que é explicada em vários momentos da vida, como tentei fazer neste texto. Entretanto, não podemos deixar de assumir que tanto Anna quanto o seu personagem Hardin cumprem o lugar fundamental de trazer à tona questões sexuais naturalizando-as ao universo feminino. E isso sim é um ponto super a favor desta obra.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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