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After No Divã #20 | Landon e a trajetória de escolhas (nem sempre) certas
POSTADO POR Colunista Convidado EM 20.Jun ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Landon é um personagem querido, daqueles que todo mundo amaria ter por perto. É aquele amigo leal e gentil que nos faz dizer: “Que sorte a de Tessa! Talvez não teria suportado tudo o que viveu sem o apoio do melhor amigo”. Ter com quem contar muda as coisas e Landon sempre foi essa pessoa: pra Dakota, pra Tessa, para a mãe… Ler a história de Landon é muito interessante para fazer o contraponto à história de Hardin, e de como todas as escolhas, seja para o ser bad boy ou o good guy, atravessam, necessariamente, questões do passado.

Em Nothing More e Nothing Less, Anna nos dá detalhes da história desse personagem, em uma escolha muito sábia. Em entrevistas, a autora diz que sempre acreditou que Landon mereceria um destaque. Além de ser querido por todos, ele tem uma saída diferente dos protagonistas de After, porque enfrenta a vida com alternativas guiadas pelo amor e pela fé no outro. Não que o seu passado tenha sido brilhante, mas os meios que os trouxeram até a vida adulta foram muito diferentes.

É em Nova York que vamos conhecer de perto quem é Landon Gibson, para além do melhor amigo de Tessa e o (finalmente) conselheiro/meio irmão de Hardin. Enquanto a sua colega de apartamento divide o seu tempo em horas de trabalho e no seu relacionamento de idas e vindas com Hardin, Landon transparece para o leitor todas as suas inseguranças, medos, saudades da mãe e dificuldade para decidir o próprio caminho. Digamos que Landon se aproxima do leitor no momento em que é justo com todo mundo e se vê quase que de forma cômica, a lidar com as injustiças da vida, por não se sentir à vontade em defrontá-las.

Landon perde o pai muito cedo e conhece uma mãe amorosa. Ainda na infância, encontra Dakota, por quem se apaixona e se vê destinado a amar, principalmente depois de ter praticamente internalizado os traumas dela com o pai abusivo que tinha. Landon parece carregar o mundo nas costas e o trocadilho dos nomes dos livros “Nada mais” e “Nada menos” refletem bem a personalidade que ele sempre expressou para o outro.

Entre todo esse cuidado, entretanto, conhecemos um personagem que também erra. De tanto optar pelas “escolhas certinhas”, ele abdica de si mesmo e sofre até conseguir decidir-se por um amor que merecia. Em alguns momentos Landon lembra o controle que Tessa tinha consigo mesma nos primeiros capítulos de After. A vida cheia de pudor e reflexões sobre “O que o outro vai achar de mim?” o reprimiam sexualmente de se entregar aos seus próprios prazeres e deslanchar aos seus verdadeiros amores.

Nora é a personagem que aparecerá como a garota apaixonada por ele desde Washington, quando ele nem a nota, justamente por estar fixado à Dakota – que provavelmente já lhe dava sinais de que o relacionamento entre eles não estava bom. A troco de ser um cara correto, Landon se acomoda neste lugar e surpreende-se quando muda-se para a Nova York  e leva um pé na bunda da namorada. Por coincidências do destino, Nora é amiga de Tessa, que a leva para dentro da casa que eles viviam e faz Landon enfrentar a pulsão sexual que Nora o despertava.

Nora revela-se a Landon, quase como o que Hardin foi para Tessa, alguém que o obriga a sair dos tabus e normas sociais, inclusive a de querer namorar uma ‘rival’ de sua ex-namorada – mesmo ele já tendo sido rejeitado. E isso não é um processo fácil pra ele. Ele se acostumou a internalizar os traumas dos outros, inclusive os de Hessa, para então existir. Ele só poderia ser útil no mundo, se pudesse afagar quem estava por perto.

A sensação que fica é que Landon tem um papel social a cumprir, que sofre para desapegar-se. Ele não poderia negar-se pra mãe, pra Tessa, pra Hardin, para Dakota, para quem quer que fosse. Ainda que a vida lhe obrigasse a seguir novos caminhos, ele sofria para aceitar. Essa é uma característica de Karen, do amor além da alma. E esse é o ponto para Landon. Enquanto cuida do outro, quem é que cuida dele?

Há ainda uns traços de timidez claramente notados neste personagem e creio que isso também facilitava o fato dele se acomodar no papel que sempre exerceu. Antes de Tessa, por exemplo, acho que nunca teve outros amigos com quem conseguira se abrir tanto. Ele já estava acostumado a ser aquilo e não estava disposto a se mostrar uma pessoa diferente. Até que o amor o exige. É impressionante como é sempre por essa via que o sujeito aparece, que se sujeita a sair do lugar e encarar as suas falhas, literalmente.

O passado e quem sempre foi fazem Landon travar uma batalha diária consigo mesmo, nos mostrando que até as pessoas ‘certinhas’ fazem escolhas ruins. Se não pro outro, para si mesmo. A diferença, neste caso, é que há fé. Landon acredita e se permite ao amor muito mais do que Hardin se permitia no início. É inclusive por causa dele, que a aproximação entre eles é possível. Landon acredita nas pessoas. E é esse o ponto de alívio e sofrimento. Traz dor no momento em que ele se omite para fazer existir o outro, mas traz alívio, quando confirma que o amor não decepciona, que ele pode tentar de novo, mesmo que com uma pessoa diferente.

Eu diria que o que Landon não é o rapaz ‘certinho’ como o conhecemos. Ou só o é para os outros. Consigo ele é muito severo, rígido e pouco permissivo. E isso tem um preço pra ele. Todavia, o amor o permite viver para além disso. Quando se liberta, não tem medo de viver, tão pouco de perder. O verdadeiro medo de Landon é não amar. E ele luta com isso a vida inteira.   

E assim conhecemos o desfecho do rapaz que precisa ser amado para existir. Com medo de errar e não ter o amor do outro, ele desfaz-se de si na maior parte do tempo. Neste ponto, questiono quem é que faz as escolhas certas em After: se é Hardin que faz de tudo para viver um amor ou se é Landon, que deixa de amar e se entregar à Nora porque teme não ser amado. O certo e o errado é uma questão de ponto de vista, por isso não há receita de bolo para felicidade. O que muda é a perspectiva. Landon sempre julgou agir certo, e só percebeu o quanto estava ‘do lado errado’, quando viu que estava vivendo para agradar o outro, e não a si mesmo.

E a vida é assim, cheia de escolhas. Se é certa ou errada, só cabe ao sujeito julgar. Adoro a frase de Tessa no último livro de After que diz: “É muito fácil julgar um relacionamento quando você não está envolvida nele”. E eu adaptaria, neste caso, para: “É muito fácil julgar alguém quando não é você o protagonista da história”. Na dúvida, faça-se protagonista e autor da sua própria história, a não ser que deseje ser um Landon, que espera o julgamento do outro para saber de si. Só não se esqueça que ele somente consegue viver um amor depois que percebe que mais do que ser amado, a grande graça da vida é permitir-se amar.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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