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After No Divã #17 | Natalie e a saída de Hardin para o passado traumático
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 22.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Lembram-se da Natalie? Aquela que é um dos pontos principais da carta que Hardin escreve para Tessa? Pois é, o texto de hoje é sobre ela e sobre a situação que ela desvela para o relacionamento Hessa, mesmo que sem querer.

Para quem não se lembra bem da história, Natalie é uma personagem fundamental. Além de revelar uma das cenas mais impactantes do passado de Hardin, ela representou um dos motivos pelos quais ele foi exilado de Londres para viver nos Estados Unidos, perto do pai. É também depois deste episódio, que Anna descreve o momento em que Hardin passou a sentir a ‘real’ solidão.

Para quem não se recorda desta personagem, aqui vai um breve resumo. Natalie era uma menina doce, de uma família tradicional e religiosa de Londres. Ela se apaixonou por Hardin, para quem se entregou sexualmente, mesmo indo contra os seus princípios morais e éticos. Ele gravou um vídeo da relação sexual entre eles e viralizou. Em poucos dias, a cidade inteira – incluindo a família dela e o ciclo da igreja, já estavam sabendo e julgando a garota pelo ato. Depois disso, a vida dela virou um pesadelo. Foi expulsa da igreja e da casa da família, e não tinha ninguém com quem contar, nem mesmo Hardin. Pelo visto, ele também pagou caro por isso: teve que sair da sua cidade natal e ir viver bem longe dali, onde se sentia sozinho e incomodado pela presença do pai.

Anos depois, após de um término com Tessa, Hardin vai para Londres e encontra Natalie na rua, que para alívio dele, já estava feliz com um noivo (Elijah) e com uma criança a caminho. Já sabendo da história deles, Tessa também a encontra por um acaso, quando vai à Londres com Hardin para o casamento de Trish. Elas conversam sobre o passado e como Natalie deu a volta por cima e encontrou um amor seguro.

Essa história não mexe com Hardin só pela gravidade da situação. Enquanto Natalie vira a página, ele vai remoer esta culpa por um bom tempo, desde a mudança para outro país até à crise existencial que ele vai ter por achar que nunca será um Elijah para Tessa.

Natalie tem vários papeis sociais em After: levantar uma questão importantíssima sobre cuidados e privacidade para os jovens que são expostos na internet e apontar as consequências disso para os dois lados (para quem sofre e para quem pratica esta ação); a maturidade de dar a volta por cima e não desistir da vida – embora ela tenha tido motivo pra isso, já que perdeu o apoio até da família; e revelar o quanto Hardin era afetado pela sua infância. Vou me ater a este último ponto, que é o objetivo desta coluna: analisar os personagens da série.

No livro Before, Anna descreve Natalie como uma personalidade doce e inocente, que representava um novo desafio para Hardin, bem como Tessa representara mais tarde. É incrível como ele tem uma questão com o sexual e a inocência de suas parceiras, não por um acaso. Lembra da história de Trish, que faz Hardin ter pesadelos por um longo período da vida? É disso que estou falando. Claro que nada justifica os dois atos graves cometidos por ele contra Natalie e Tessa (especialmente na aposta), mas percebam como Hardin tenta lidar com a história traumática da sua infância fazendo sofrer mulheres inocentes, bem como a sua mãe fora enquanto violentada pelo estupro.

Incompreendendo o mal daquele ato, Hardin se torna, inconscientemente, um homem que fará sofrer, sexualmente, parceiras aparentemente ‘indefesas’. É interessante como ele lida com o evento traumático da infância através do ato, da repetição. Talvez, se ele tivesse tido um espaço para falar sobre isso (inclusive com o pai), as coisas teriam sido bem diferentes. A família de Hardin peca muito pelo silêncio. Há muitos segredos sobre a mãe e os ‘dois pais’ dele. Já disse por aqui algumas vezes que onde não há palavra, há ato. Não existe ‘maldade’ pura e simplesmente, mas contextos que não favorecem para que essa pessoa canalize a sua ‘agressividade’ por meio de palavras. E vejam que quando Hardin começa a falar sobre isso com Tessa, isso começa a desparecer. Até com os pesadelos. É quando ele começa a dizer sobre aquilo, que aquilo passa a sumir aos poucos. Antes de Tessa, ele não tinha a quem contar.

No texto Porque Tessa perdoa Hardin discuti sobre esse ‘poder’ que a palavra tem, de dar a chance um sujeito emergir, para além dos seus atos. E é isso que faz um perdão.

Natalie e Tessa não estão na história de Anna para provar que Hardin estava certo em suas atitudes, mas para levantar um importante alerta sobre uma questão: Quantas segundas chances você teve na vida e nunca percebeu? Hardin teve várias, além da (grande) sorte de encontrar alguém que acima de tudo, lhe escutasse. É isso que o transforma e que faz do relacionamento deles, algo possível. Mas é claro, para alguém que só atuava para lidar com as suas questões, começar a falar simplesmente, não traria um personagem mudado da noite para o dia. Foi preciso resiliência até para que Hardin compreendesse que nenhuma Natalie mais seria necessária para que ele pudesse lidar com o seu passado.

Tessa transpõe os atos de Hardin pela palavra. O discurso feroz de punir o outro pelo próprio passado vai caindo. E sorte a dele dessas pessoas terem sido vitoriosas após os seus atos, senão correria o risco de ainda carregar essa culpa por mais tempo.

No consultório de psicologia já conheci muitos Hardins, que atuam sem dar uma segunda chance para si e para os outros, até encontrar alguém que fure esse discurso feroz, mas felizmente, também conheci muitas Natalies, que ressignificaram a vida  apesar dos traumas vividos. E nesse meio do caminho, também conheci After, que é uma boa chance para discutirmos sobre personalidades como a deles. Cada caso é um, singular, mas se esta coluna despertar o interesse das pessoas de falarem sobre os seus traumas, então terá feito algum sentido.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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