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After No Divã #16 | Por que Tessa perdoa Hardin?
POSTADO POR Colunista Convidado EM 15.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Essa é uma sugestão que apareceu pelo Instagram e há muito tempo quero falar sobre ela. Já conversamos sobre a personalidade de Tessa em diferentes aspectos em outros textos da coluna After no Divã, mas este, especificamente, vou falar sobre o ‘super poder’ que essa mulher carrega consigo em todas as searas da vida.

Família, amigos, namorado… A sensação é que todo mundo já pisou na bola com Tessa em algum momento da vida. A cada perdão, uma mágoa vivida. Por ora, vou me ater ao grande momento que faz um enigma para o leitor que se interessa em continuar a leitura depois do primeiro livro. Será que Hardin terá uma segunda chance? Será Tessa capaz de perdoar a traição de seus amigos? Será que ela vai suportar viver com a ideia dos seus valores morais completamente desmoronados? Para todas essas perguntas, a resposta “sim” parece não indignar depois que começamos a conhecer a fundo esta personagem.

O que faz Tessa perdoar é mais do que o amor. É a resiliência. É algo que ela se dispõe e que hoje é raridade no mundo: ouvir o outro. Quando dizem que a história de Anna Todd é puramente abusiva (sem aplicar isso a um contexto) e que Tessa era submissa a Hardin, eu discordo veementemente. Ela é forte e sabia muito bem o que estava fazendo: ela estava se dando uma segunda chance. Não era para Hardin, era para si, de assumir a postura de uma mulher que também erra (inclusive nas suas escolhas), mas que há uma história para além do erro. E é claro que ele erra feio com ela, mas paga com juros altíssimos, como discuti no texto Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?.

Tem algo que ela quer descobrir e permanece nisso não por ‘inocência’, não mesmo. Há algo do passado que ela defronta em Hardin, com um homem que erra, mas dessa vez ela quer entender o porque. Diferente da sua infância, desta vez ela começa a fazer perguntas, e não engole qualquer história. Esse é o enigma que Hardin faz pra ela e é uma resposta que faz ela gozar desta posição: o erro é de quem a magoa, e não é por culpa dela. Quando perdoa Hardin, é como se ela quisesse ‘ficar para ver’ que os homens saem da sua vida cometendo erros gravíssimos não para atacá-la, mas porque não dão conta de si, de enfrentarem as suas próprias histórias.

É claro que a opção de perdoá-lo não é totalmente consciente. Vejo como um enfrentamento ao pai e à sua própria história. Tessa é tão forte, que fica para provar isso e mostrar ao outro: lide com os seus erros ao invés de magoar os outros. E não é isso que ela faz com Hardin depois que o perdoa? Coloca ele a trabalho e faz ele enfrentar cada monstro do seu passado. E é aí que o perdão se sustenta: porque há um amor, que absolutamente, ela não queria perder.

E assim como Tessa, quem continua a leitura dos livros também o perdoa. Quando entra a palavra e a informação sobre ele em detalhes, o julgamento pela história se torna possível, e pelo visto, muita gente decidiu perdoá-lo com ela (vide a quantidade de livros vendidos).

Costumo dizer que Tessa não passa a ser uma nova mulher depois de Hardin. Ela sempre foi assim, desse jeito, só não podia ser, nem se revelar. Sempre foi julgada pela família, pela vida social da mãe e pelo ‘castigo’ de não ter vivido com o pai, que talvez influenciaria nas regras e padrões que a mãe a impunha.

Em vários momentos do livro (e também em uma cena do filme), Hardin diz a ela quando ela precisa se colocar para mãe ou para Noah: não coloque isso na minha conta, isso é seu. Não é por causa de Hardin que ela abre mão da vida que levava. É por ela mesma. E quando ela se descobre, só há o After (depois). Isso muda as coisas.

Ao meu ver, o único momento em que Hardin a influencia a perdoar, é quando ela encontra o pai. Ele praticamente a coloca de frente com essa situação, assim como ela faz com ele quando o leva de forma mais constante para casa de Ken. Conhecendo Richard, ela passa a ver o homem para além da triste história que conhecia da infância, e percebe que é possível amá-lo, apesar de tudo.

Resumindo, há perdão porque há amor. Não que o amor tenha que sustentar todos os erros, mas é através dele que há possibilidade de ouvir o outro e não julgar o livro pela capa, literalmente. Entre o amor e o perdão há a resiliência, que faz com que uma pessoa dê uma nova chance ao outro e também a si mesma. E diferente do que a crítica pontua, After não fornece um ‘aval’ para que atitudes erradas permaneçam aí e que novas Tessas surjam para perdoá-las. Cada história é uma e todas devem ser traduzidas em palavras, porque enquanto não houver discussão, as pessoas envolvidas jamais saberão que existem uma segunda chance, seja para ficar, seja para sair da sua própria história.  

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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