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After No Divã #15 | Molly Samuels por detrás do semblante da ‘vilã’
POSTADO POR Colunista Convidado EM 09.May ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Dentre os personagens de After que mais despertam a curiosidade dos leitores, Molly sem dúvida alguma ocupa o Top Five das personalidades que gostaríamos de compreender melhor. Extremamente marcada por uma presença forte (física e emocionalmente), a dona dos cabelos cor de rosa merece um destaque no divã, e hoje vamos falar sobre ela. 🙂

No texto do Zed comentei sobre o papel dele de marcar o antagonismo ao casal principal da trama (se você não leu, clique aqui para ler). A princípio, Molly aparentemente carrega essa característica, de tentar forçar um triângulo amoroso onde ‘competiria’ com Tessa o amor de Hardin. Entretanto, ao meu ver, o papel dela vai muito além disso. Não há competição nem aposta para ver quem levaria ‘a melhor’. A questão dela é endereçada mais do que a Tessa ou a Hardin, mas à vida. E é atrás deste semblante de bad bitch que ela irá se esconder do seu próprio passado e não se deixará abalar por qualquer situação.

Vocês também percebem que ao longo da narrativa fica claro que o objetivo dela nunca foi o Hardin especificamente? Por mais que tenha sido ela a provocar Tessa na festa em que se conheceram, a endereçar mensagens para o telefone de Hardin e a revelar a aposta, ela nunca quis ‘vencer’ Tessa e ganhar Hardin como um troféu. Para mim, Molly tem uma questão por detrás do casal que é muito mais do que ‘forçar’ uma separação entre eles. Há um medo de enfrentar a vida e o amor, a partir do que eles começam a desvelar para ela. E é isso que a incomoda. Para não ter que lidar com isso, é melhor se afastar e continuar a ocupar o lugar de vilã da vida. É melhor manter-se forte do que fraquejar para um sentimento que só trazia culpa a ela.

Molly tem um papel tão relevante, que ganhou algumas páginas no livro que desvenda o passado de Hardin e de alguns outros personagens, também conhecido como Before.  No prefácio ao capítulo de Molly, Anna descreve “Conforme a garota foi crescendo, ela aprendeu o jogo e se tornou uma excelente jogadora”. Há uma contextualização no passado da história desta personagem onde ela aprende a vestir-se do semblante da sensualidade para não ter que se a ver com o vazio em si. Ela só ganharia a atenção de alguém se pudesse expor o que ela tinha de bom: o seu corpo, bem como a sua mãe lhe ensinou. Porém, ao contrário de Carol, a mãe de Molly a culpou pela vida que levava e até por ter destruído o corpo que tinha antes de engravidar. E então decide abandonar a filha, em meio a um vazio de uma vida cheia de mordomias e sem nenhuma simpatia.

Apesar disso, Molly soube amar. E quando descobriu que isso seria possível, perdeu o grande amor da sua vida praticamente em seus braços, em um acidente de carro que ela mesmo havia causado. Mais uma vez, a culpa por estragar a vida dos outros se fez presente. E enquanto corria de um homem que a perseguia na rua, a mãe de seu ex-namorado a encontra e a aconselha a ir estudar. E é mais uma tentativa que ela faz para manter-se de pé, mostrando que a personalidade é forte, porque assim teria que ser, não havia outra alternativa.

Diferente de Hardin, Molly tem um passado traumático onde ela só sobreviveria se fosse forte. Ninguém escondeu-lhe a dor. Ela conheceu a mãe que tinha e precisou enfrentar isso. Ela conheceu o amor e foi assombrada por ele, quando se deparou com a morte do corpo de um amante, que enterrou com ele, toda a esperança de que a garota de cabelos cor de rosa poderia ter neste sentimento. O amor, para ela, não é algo desconhecido. É sinônimo de dor, de culpa. E a única saída seria ser forte e fechar-se a essa possibilidade, seja de onde ela viesse.

E assim fez, foi estudar e precisou enfrentar um amor que deu certo. Como mencionado acima, a questão dela não era com Hardin, mas com o amor que ele poderia sentir. Ela não acreditava em um amor sem culpa, e quase que numa tentativa de fazer Tessa enxergar isso, ela a provoca e revela a aposta como se quisesse dizer: “Jamais acredite no amor, ele sempre decepciona”. Da pior maneira possível, ela ajuda Tessa na tentativa de poupá-la de viver o que ela já viveu. Isso também explica a atitude que Molly teve na fatídica noite da traição de Steph. Mais uma vez, ela é quem ajuda Tessa, mas desta vez, pelos motivos certos. E isso a transforma. Ouso dizer que é nesse momento em que ela descobre que poderia amar novamente, porque consegue se importar e proteger alguém de si mesma.

A antipatia entre Tessa e Molly revelava o amor, em diferentes momentos. Tessa estava encontrando-o e Molly não queria sentí-lo novamente. Ter Hardin seria uma forma de poupar Tessa e talvez até Hardin de ter que enfrentar a dor de amar. Ela nunca o amou. Ele sustentava o semblante de que ela era atraente ao olhar de um homem e de que ela era forte: se precisasse descartar ele, ela também o faria. Como o fez. Não ficava só com ele. Ficava com outros para dar conta de decidir, como se controlasse o que sentia. E quando enfrenta o amor ao defender Tessa, ela volta a amar e possibilita-se a ter um novo relacionamento amoroso, poupando Hessa de suas provocações.

Molly é forte, provocativa, atraente, inteligente. É do tipo de personalidade que se adquire ao longo da vida, de uma casca grossa trazida com a dor. E para mim, Molly traz duas mensagens importantíssimas na obra de Anna Todd: a de que é possível seguir em frente e a de que defesa alguma é capaz de apagar um passado. É preciso ser forte, pois não há armadura física suficiente para afastar-lhe das dores que já viveu. É preciso enfrentar o outro não pela autodefesa, mas por quem ela é de verdade. É isso que ela revela a Tessa e aos amigos: quem ela sempre foi e quem jamais gostaria de ser novamente.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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