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After No Divã #13 | Por que Hardin permanece com a aposta mesmo já amando Tessa?
POSTADO POR Douglas Vasquez EM 24.Apr ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Foi exatamente esta pergunta que chegou para mim pelas Redes Sociais e não foi a primeira vez que a vi. Percebo este questionamento com frequência na minha página e em várias outras que acompanho de After

E de fato é um questionamento bem pertinente à narrativa. E ele não é por um acaso. E nem foi uma ‘falha’ da obra. Muito pelo contrário. Quando Anna discorre detalhadamente sobre Hessa e caminha para o clímax do final do primeiro livro, começamos a perceber a fraqueza de Hardin. Quando o amor para além de si entra em cena, ele não sabe o que fazer.

Mas afinal, porque ele mantém este segredo da amada?

Hardin nunca se importou com nada, até conhecer Tessa. Já disse em vários textos que After na verdade é sobre ele, sobre toda a mudança que ele tem que enfrentar quando a encontra. Entretanto, não há escolha sem perda, nem ‘milagres’. Mudar de hábitos não é uma tarefa fácil e os dois personagens estão aí para nos provar isso. Pra Hardin, encarar questões que ele sempre preferiu “deixar para lá” trouxe um preço que só ele poderia pagar.  

Manter o jogo era uma forma de manter segredo sobre o seu amor e sobre a sua fragilidade frente à ele – tanto que ele nem conta aos amigos que ele e Tessa estão morando juntos. Continuar com a aposta não foi uma forma de machucar Tessa, mas de não se machucar. Ele ainda não sabia lidar com esse outro. Se no momento da aposta ele não se importava com nada (nem mesmo com a opinião dos amigos), depois de Tessa, a opinião deles passou a importar muito, pois ele temia saber o que eles pensavam, o que iriam achar dele e até o que poderiam fazer a ele e a amada.

Hardin é um personagem tão real, que é como muitas pessoas, que tentam fazer as coisas certas, mas pelas piores maneiras possíveis. Ao meu ver, ele manteve a aposta por total insegurança, por não saber o que esperar disso, dos amigos, e principalmente, por Tessa. Naquele momento a maior fragilidade dele era perdê-la. Nunca acreditei que a intenção dele foi continuar com a aposta. A realidade é que ele não soube lidar com isso e não fazia ideia de como “se livrar” dessa situação. Aí encontra os amigos um dia antes da revelação, age pela agressividade, magoa Tessa não dormindo em casa e não resolve nada. Perde tudo. Tenta resolver as coisas com boa intenção, mas não sabe fazê-lo. A aposta foi um ótimo momento para revelar Hardin: alguém capaz de amar e se importar, mas sem habilidade alguma para lidar com isso.

Manter a aposta não foi uma opção, mas a falta de uma alternativa que ele pudesse suportar.

E o que faz o sujeito manter estas escolhas? Em outros textos já discuti sobre a neurose obsessiva, termo criado por Sigmund Freud para dizer sobre uma estrutura psíquica que produz sofrimento e aponta para os impasses do sujeito com o seu desejo inconsciente. É comum do sujeito neurótico obsessivo não querer abrir mão de suas escolhas, ele tenta preencher tudo e não deixar faltar nada. Quando perde algo, sofre. É aquele tipo de pessoa que vai ao cinema com a namorada e sempre deixa ela escolher o filme, com medo de faltar algo a ela, mesmo que não seja o filme que ele queria ver de verdade, sabe?

Revelar ou não a aposta, para Hardin, seria perder alguma coisa: ou Tessa ou os seus amigos ou a si mesmo. Era um momento de escolha, que necessariamente implicaria em uma perda. E isso é um ponto de sofrimento para o obsessivo, pois quando ele não se decide, ele acaba perdendo do mesmo jeito.

Complexo, né? Enquanto escrevia este texto me peguei no trocadilho do nome de Hardin, que é Hard (difícil em inglês) + In (dentro), como exatamente o conhecemos: difícil por dentro.

É claro que este texto não pretende diminuir o sofrimento de Tessa frente à esta situação. Todos sabemos que ela foi a vítima da aposta. O intuito aqui é compreender porque Hardin fez o que fez. Em outro momento podemos discutir os impactos deste trauma para ela. Sem dúvida renderia muitas conclusões, a começar da que é a partir daí, que ela passa a ser mais forte.

Sobre a autora

Jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há três. Pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital, atua na clínica com jovens e adolescentes. No seu aniversário de 31 anos ganhou o livro After de uns amigos psicanalistas. Em um mês já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.

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