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After No Divã | Quem são os leitores de After?
POSTADO POR Cínthia Demaria EM 21.Feb ARQUIVADO EM:Colunas

Por Cínthia Demaria – Jornalista e Psicanalista

Alerta de Spoiler! Se você não leu todos os livros da série, não deve ler este texto.

A Psicanálise é a clínica da singularidade. Trabalhamos com caso a caso, partindo do pressuposto de que ninguém é igual a ninguém. Cada um tem as suas questões e reage de diferentes maneiras mesmo em situações comuns ou compartilhadas com outros. O mesmo acontece com a leitura. Lemos o mesmo texto, podemos dividir a mesma admiração pelo autor, mas tenho certeza que cada um cria o seu próprio cenário e coloca um pouco de si e do seu repertório em cada frase.

Desde o princípio da coluna After no Divã procuro trazer esse ponto. O que eu escrevo aqui é a minha leitura da obra de Anna Todd sob o meu ponto de vista. A identificação que pode causar com outros leitores é atravessada por um ideal que já compartilhamos: admiramos a narrativa do livro e aqui compartilhamos deste gozo que circunda o “grupo de identificação de quem gosta de Anna Todd”. Assim como, independente do que eu vá escrever, sempre terá o grupo antagônico a esta opinião. São argumentos expostos, mas geralmente quem não se identifica com um pensamento irá mudar de opinião por dizeres fundamentados. As últimas eleições no Brasil estão aí para provar isso.

É claro que explanar sobre a situação de forma argumentativa enriquece a discussão, mas ninguém muda de lado por isso. A pessoa só muda se assim ela desejar e se os argumentos tocarem em pontos que dizem sobre o seu repertório. Vejam pela ótica de Hardin Scott. Somente quando foi um desejo dele é que passou a ser possível uma mudança. E não foi fácil, como bem sabemos.

Bom, mas o objetivo deste texto é trocar o divã de lado e deitar os fãs de After, para compreendermos minimamente os agrupamentos – nunca a história de cada um com a leitura, porque isso é particular. A proposta é mapear minimamente os grupos de pessoas que podem se encaixar em todos eles ou podem não se encaixar em nenhum.

#teamHardin Independente do agrupamento, se você pertence aos que adoram After, esse é inevitável. Já disse em outros momentos que, ao meu ver, a história é sobre Hardin. E sobre o amor, mas o amor de Hardin. A narrativa percorre toda a nossa torcida para que o personagem dê conta de amar e sobreviva ao furacão Hessa. Hardin é o personagem que cativa de vários jeitos. Ele não precisa ser Harry ou Hero para isso. A descrição minuciosa de Anna faz arrepiar o leitor. O que amamos em Hardin é o enigma, o semblante do mistério indecifrável e a pulsão sexual que ele desperta. Em outras palavras, o que amamos é a reação que temos ao conhecê-lo – ou até ‘não conhecê-lo’, porque é a dúvida que nos mantém presos na leitura.

#teamTessa Quando eu digo que After é sobre Hardin, obviamente não estou ignorando a história de Tessa, que é no fundo, a protagonista da obra.  O que eu quero dizer é que Hardin é que nos desperta o desejo e a identificação com a história de um amor “impossível”. Se ver no lugar de Tessa é se colocar na vida real, onde o desejo bate de frente com o mal estar da civilização. Há pulsão, mas há regras. Quando pendemos mais para um lado do que para o outro, há punição. Amar demais Hardin, sem conseguir dizer não, a coloca em posição de sofrimento. Amar demais a sua rotina planejada, a deixa sem o amor. O que a personagem busca é equilibrar esse estado, até conseguir se afastar enquanto o outro também ‘se cura’ para amá-la. Hardin e Tessa é como a vida: sem equilíbrio, não há paz.

#teamMovie Sentei para escrever este texto após assistir ao trailer do filme. Não tive dúvidas que o divã, desta vez, seria para o leitor/espectador. Superar as nossas expectativas e fazer borda ao imaginário que a gente cria pela leitura faz estarrecer o inconsciente. Acredito que pode ter havido estranhamento quanto aos atores, ao roteiro do filme, assim como haverá após o lançamento em abril. É claro que um filme jamais alcançará o imaginário de cada um. Isso acontece com qualquer obra literária que vai para as telonas. Não há como superar a expectativa que você criou, nem mesmo se fosse você o roteirista. Há sempre a visão do outro que atravessa o nosso ideal. Procuro fazer analogia de livro X filme como eu X o outro na vida real.  Cria-se um ideal do eu que sempre será frustrado por um semelhante, que por mais que se pareçam, sempre vão ser diferentes. Isso serve para Tessa X Hardin também. Há um imaginário que ao tempo inteiro será estilhaçado por outro que não o representa.

#teamMe Esse é o agrupamento que nos faz identificar a outro. É sobre mim a leitura que faço de uma obra. Cada um coloca em cena as suas próprias questões enquanto lê. É neste momento que passa a ser possível se identificar a um outro por um gozo partilhado. Somos de diferentes idades e cidades, mas estamos aqui, lendo esta página por um objetivo: amar ou odiar o objeto que no fundo nos identificamos (ou contra identificamos) de alguma forma: aquela história que nos toca de algum jeito.

Resumindo, por ser uma leitura particular de cada um, o que amamos em After é a leitura que fazemos da história, quem nos tornamos e o que sentimos enquanto lemos. Por isso, não adianta odiar os haters. Eles falam da reação que eles tiveram, do repertório deles. Jaques Lacan criou o neologismo “amódio”, que é nada mais é do que, quando um começa, o outro termina. Até mesmo para amarmos After precisamos odiar quem não ama. E é assim que o ser humano se agrupa e se identifica, também pela segregação. Desde que não fira e não falte ao respeito com a opinião contrária, amar e odiar é o que nos faz pertencer. Saber equilibrar isso é o que nos liberta. Assim como o nosso casal favorito, que começa como Hessa e termina como Hardin e Tessa.  Dois seres humanos independentes que se amam.


Sobre a autora

Eu provavelmente tenho o dobro da idade da maioria das leitoras de Anna Todd. Sou jornalista por profissão há dez anos e psicóloga há quase três. No meu aniversário de 31 ganhei de um grupo de amigos psicanalistas o livro After. Sou pesquisadora da área de Psicanálise e Cultura Digital e atuo na clínica com jovens e adolescentes. Esta foi a desculpa deles para me presentearem com Anna Todd ao invés de uma obra de Sigmund Freud ou Jacques Lacan. Ainda bem que eles fizeram isso. Em um mês eu já tinha lido a série completa. E agora é só o Depois.


Cínthia Demaria é jornalista, psicanalista e autora da Coluna After No Divã, aqui no After Brasil. Seus textos são apresentados quinzenalmente às quartas-feiras, sempre analisando um aspecto diferente dentro da Série After e os seus derivados.

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